CASO DA FAZENDA BOTAFOGO – CRIME AO PATRIMÔNIO HISTÓRICO, de Cleydson Garcia

Membro do Grupo S.O.S. Patrimônio do Facebook, estudante de Arquitetura e pesquisador, o autor é apaixonado pela história do Rio de Janeiro.

A partir da pergunta fez a si, e o intrigou – “Como o governo permite levantar um conjunto Minha Casa Minha Vida sem fazer estudo prévio do terreno com a presença de arqueólogos para desenterrar resquícios daquele patrimônio?” – publicou naquela rede social artigo sobre a região conhecida como Fazenda Botafogo, cuja antiga sede – hoje abrangida pelo bairro de Costa Barros, Zona Norte – foi demolida há alguns anos.

Segundo o autor, o passado colonial nos escapa e deforma as interpretações da cidade “Maravilhosa”, pois estes arredores – hoje desvalorizados como “subúrbios” – estavam ligados à economia da cana de açúcar, do ouro e do café eram a ligação entre o antigo município das Cortes cariocas, a Serra e todo o Estado do Rio de Janeiro.

Agradecemos a Cleydson Garcia por autorizar a reprodução do seu trabalho. Boa leitura.

Urbe CaRioca
Freguesias do Rio de Janeiro Século XIX
Mapa cedido pela Professora Cleia Schiavo

CASO DA FAZENDA BOTAFOGO – CRIME AO PATRIMÔNIO HISTÓRICO
Programa Minha Casa Minha vida destrói a memória do subúrbio colonial carioca

Cleydson Garcia

Recebi a informação de que a Casa Sede da Fazenda Botafogo já não existe mais: foi demolida há 3 anos e meio!
No Grupo de Estudos do INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DA BAIXADA DE IRAJÁ – IHGBI, do qual faço parte, fizemos o levantamento sobre a região procurando fontes em arquivos, referências bibliográficas (raras, praticamente esgotadas), usamos dados georreferenciais, e buscamos também a memória da população local. Quanto ao recorte geográfico, a Baixada de Irajá – que abrange a antiga Freguesia do mesmo nome – hoje está fragmentada em 39 bairros e compreende também partes de Realengo (Piraquara).
A Fazenda Botafogo era o último patrimônio de alto valor histórico para esta região. Existia desde a segunda metade do século XVIII, e, provavelmente, era remanescente de uma ‘Fazenda e Engenho’ mais primitiva do século XVII. Recebeu este nome por causa do Sr. Botafogo (sobrenome), e a ele foi “doada” em gratificação pelos serviços prestados à Coroa. Confrontava a leste com as terras da Fazenda e Engenho Nossa Senhora da Conceição de Pavuna, o oeste com as terras da Fazenda e Engenho Nossa Senhora de Nazareth, ao Sul com a Fazenda da Boa Esperança, e ao norte com a Freguesia São João Batista de Merity.
O local foi uns dos maiores produtores de açúcar e aguardente da Baixada de Irajá durante alguns períodos. Segundo o Jornal do Comércio de 1839, (disponível na Hemeroteca Digital) o Engenho Botafogo – fábrica de açúcar, rapadura e aguardente -, foi o maior produtor da Freguesia de Irajá e produziu 24 pipas de aguardente naquele ano. Teve diversos proprietários anteriormente, mas, na segunda metade do século XIX, seria da família Coutinho.
Por volta de 1883, aparece em cena o Sr. Luis de Souza da Costa Barros, que seria sobrinho de Ignácio Coutinho e herdaria a casa-sede da fazenda oficialmente em 1887. Anos mais tarde, a herdeira seria sua filha D. Luíza Barros de Sá Freire (nome de casada), que faleceu com 99 anos em 1971. A família ficou com a fazenda até o ano de 1981, quando o governo desapropriou o que restava das terras (66.186 m²).
As terras da Fazenda Botafogo iam até o outro lado da Av. Brasil, onde está o polo industrial (Eternit e outras empresas). O latifúndio abrangia os bairros de Costa Barros, Barros Filho, Coelho Neto (Conjunto Fazenda Botafogo) e partes da Pavuna (à esquerda do metrô), com área superior a 2 milhões de metros quadrados.
Antes da desapropriação, a antiga proprietária vendeu as terras mais afastadas da casa-sede; os morros da Pedreira e da Lagartixa foram repassados para o I.A.P.I na década de 1950 e, poucos anos depois, desse para a Companhia Estadual de Habitação do Estado do Rio de Janeiro – CEHAB-RJ.
Na Secretaria Municipal do Urbanismo – SMU encontram-se alguns projetos de abertura de ruas no alto dos morros da Pedreira e Lagartixa, de 1978. O processo de ocupação da parte alta iniciou-se naquele ano e prosseguiu até 1983, para realojar famílias das favelas demolidas da Zona Sul. Os terrenos da CEHAB sofreram invasão ao longo dos anos 1980 e 1990.
Segundo um antigo morador da região, a comunidade começou a existir, porque um padre da paróquia São Luis – Rei da França abrigou pessoas sem-teto por variados motivos. No início dos anos 1980 a comunidade estava em fase embrionária e os morros ainda estavam pouco ocupados (Observação: Não se trata em absoluto de mostrar desprezo pelos moradores das comunidades, mas, apenas estou de fazer o levantamento histórico na região).
A casa sede ficou abandonada de 1981 até ser demolida em 2012.
A construção que deveria ter permanecido como um marco histórico da ocupação da Zona Norte do Rio de Janeiro, infelizmente, não existe mais, enquanto tantos terrenos vazios, e prédios sem uso que poderiam atender à necessidade de abrigar moradias populares, foram desconsiderados ou vendidos para a iniciativa privada.
A seguir, temos as imagens do satélite extraídas do Google Earth mostrando a evolução do descaso do governo, e mais a imagem cedida pelo antigo morador da fazenda, genro do filho de D. Luiza.
Texto e revisão: Cleydson Garcia
Imagens: Cleydson Garcia
IN MEMORIAN – FAZENDA BOTAFOGO
Endereço: Estrada de Botafogo, próximo ao n°610, Bairro: Costa Barros, Rio de Janeiro.
Descrição das Imagens:

2003: A casa sede estava bem conservada, com poucos invasores. Porém, foi parcialmente destelhada, por uma minoria que vivia em seu entorno.

2006: O terreno estava sendo invadido por dezenas de famílias sem-teto, e a Casa-Sede sofreu graves descaracterizações na parte de cima (telhado), pois começaram a construir “puxadinhos” em cima dela.

2009: A ocupação dos invasores chega ao auge, quase não há espaço no terreno para construir mais barracas de madeira e tijolo.

2011: O último ano da existência da Casa-Sede.

2012: Houve a remoção dessas famílias no local e a destruição do último patrimônio da Baixada de Irajá, que representava as fazendas de açúcar.

2014: Preparação do terreno para a construção dos apartamentos que pertence ao programa: “Minha Casa Minha Vida”. Sem sequer contratar arqueólogos especializados em cuidar de rastros de antiguidades.

2015: Parte 1 – Obras do apartamento em andamento. Parte 2 – Obras chegando ao término.
A última imagem é a própria Fazenda Botafogo, pintada por Maria Sá Freire.

  1. Eu conheci muito aquele lugar,era lindo.O casarão era de chamar a atenção,pela natureza da história de mostrava trazer.
    Houve um período que o grupo da prefeitura a pedido do padre Nelson,que estava na Igreja no começo do ano 2000,esteve no casarão (já invadido por algumas pessoas)para um estudo do período,foi avaliado um espaço que possivelmente serviu de senzala.Pedimos o tombamento do casarão, porém na tivemos uma resposta positiva.
    Foi muito triste para nós,o espaço foi sendo cada vez mais invadido.Infelismente nosso país não preserva sua história, talvez para as pessoas não entenderem o presente e não querer construir um futuro digno.

  2. O casarão não ficou abandonado durante este tempo, a minha tia morava lá eu e minha família na casa ao lado. Infelizmente muita história se perdeu. Eu amava cada detalhe daquela casa!
    Parabéns pela matéria.

  3. Oii Josiane! Vou pedir para a Andrea Albuquerque atualizar meu texto. Recebi a informação do ano de 1981, por causa de uma outra parente sua, o cunhado de Maria do Socorro.

    Um abraço!

  4. O casarão não ficou abandonado depois dos anos 80! Eu nasci em 87 e morei lá até meus 9 anos de idade e além de algumas fotos, tenho muitas lembranças de lá. Até hoje me sinto triste porque a prefeitura tomou o casarão alegando fazer um museu primeiramente, depois um clube.. porém abandonaram e deixaram a mercê de qualquer um. Minha vó cuidou muito bem todos os anos que vivemos lá…. só restou saudades.

    1. eu conheço o lugar fui nascido e criado no morro da lagartixa meus pais chegaram la em 1978 ,o nome dessa área era chamada de nera eu via sempre esse casarão la e uma pena que tristeza

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