O debate sobre a política ambiental do Rio de Janeiro deixou de ser uma controvérsia local para se tornar uma questão de repercussão internacional, segundo o artigo de Antônio Sá, fiscal de Rendas aposentado do Município do Rio de Janeiro e ex-Subsecretário de Assuntos Legislativos e Parlamentares do Município do Rio de Janeiro. A tradução e a divulgação, em inglês, de denúncias sobre a gestão municipal ampliam o alcance de críticas que antes circulavam majoritariamente no Brasil, projetando para o exterior questionamentos sobre decisões que afetam diretamente o patrimônio natural da Cidade.
Nesse novo cenário, o autor destaca que a atuação do prefeito Eduardo Paes e da secretária Tainá de Paula passa a ser observada não apenas por eleitores locais, mas também por um público global atento às agendas ambientais. Esse movimento ganha ainda mais relevância porque ocorre em um momento em que cidades competem internacionalmente por reputação, investimentos e protagonismo político.
Ao ser levada a plataformas estrangeiras, a denúncia rompe a barreira da narrativa doméstica e expõe possíveis contradições entre discurso e prática na condução da política ambiental carioca. Mais do que um embate político, trata-se agora de uma disputa pela imagem do Rio de Janeiro no mundo — e pelos rumos de um modelo de gestão que começa a enfrentar questionamentos fora de suas próprias fronteiras.
Urbe CaRioca
O “verde está à venda” do Rio ganha o mundo: denúncia contra Eduardo Paes e Tainá de Paula agora repercute em inglês
Por Antônio Sá, fiscal de Rendas aposentado do Município do Rio de Janeiro e ex-Subsecretário de Assuntos Legislativos e Parlamentares do Município do Rio de Janeiro

Quando a denúncia ultrapassa fronteiras
Há momentos em que uma denúncia deixa de ser apenas local e passa a ecoar para além das fronteiras nacionais. É exatamente o que começa a ocorrer agora com a política ambiental da Prefeitura do Rio de Janeiro.
O sítio RioOnWatch, conhecido portal internacional voltado à análise crítica das transformações urbanas e sociais da cidade — especialmente sob a ótica das comunidades — passou a divulgar, em inglês, a tradução de um excelente artigo originalmente publicado no sítio O Eco.
Artigo em inglês (RioOnWatch): “Rio Mayor Eduardo Paes Sells Off Iconic Green Spaces”
Mayor dismantles Environment Secretariat and unleashes a deregulatory, privatizing orgy with lasting consequences for the city
Artigo original em português (O Eco): “Eduardo Paes põe o verde do Rio à venda”
Prefeito desmonta a Secretaria de Meio Ambiente e promove uma orgia desregulatória e privatista que terá consequências negativas perenes para a cidade
RioOnWatch: o Rio sob o olhar internacional
O RioOnWatch não é um sítio qualquer. Trata-se de uma plataforma que acompanha criticamente as políticas públicas, os impactos urbanos e as transformações sociais do Rio de Janeiro, com grande alcance internacional.
Ao traduzir e divulgar esse artigo, o portal cumpre um papel fundamental: levar ao público estrangeiro aquilo que muitas vezes se tenta suavizar internamente. E isso tem um peso enorme — especialmente quando autoridades locais buscam construir, no exterior, uma imagem de modernidade, eficiência e liderança.
A denúncia: o “verde à venda”
A tradução publicada pelo RioOnWatch é direta e contundente. O título já diz tudo: “O prefeito do Rio, Eduardo Paes, está vendendo espaços verdes icônicos”. O texto traduzido aponta, sem rodeios, que estamos diante de uma verdadeira liquidação do patrimônio natural do Rio. sob o pretexto de “modernização” e “revitalização” em áreas deliberadamente deixadas degradar.
Segundo o próprio artigo: “Este artigo urgente mostra, sem margem para dúvidas, que estamos no meio de uma liquidação do patrimônio natural do Rio, atacado em múltiplas frentes ao mesmo tempo.”
E vai além: “Tudo isso ocorre sob o pretexto de ‘modernização’ ou ‘revitalização’ de áreas deliberadamente negligenciadas, facilitando convencer a população da suposta ineficiência do poder público — uma ineficiência que, segundo a narrativa, apenas o setor privado poderia resolver.” Ou seja: utiliza-se um problema (criado?) para justificar a entrega ao setor privado.
A cidade transformada em espetáculo
O texto também denuncia o objetivo por trás dessa lógica: “O objetivo parece ser transformar todo o Rio de Janeiro em uma grande festa contínua, com celebrações, shows, eventos, atrações e instalações por toda parte.”
E apresenta um dado alarmante: “Hoje, 75% dos moradores do Rio deixariam a cidade se pudessem. Em 2011, esse número era de apenas 27%.” Isso não é detalhe. É um sintoma.
A reação da sociedade: Davi contra Golias
O artigo traduzido também destaca a reação da sociedade civil: “Associações de moradores, organizações ambientais e cidadãos indignados têm reagido com vigor, mas trata-se de uma luta profundamente desigual — uma clássica situação de Davi contra Golias.”
De um lado, grandes empresas; advogados bem pagos e operadores políticos. Do outro, cidadãos comuns defendendo sua cidade. E, ainda assim: “Não vamos desistir.”
O silêncio incômodo — e a contradição política
A crítica não se limita ao prefeito Eduardo Paes. O artigo também atinge diretamente a atual Secretária de Meio Ambiente e Clima, Tainá de Paula, Vereadora licenciada filiada ao PT — partido que historicamente afirma defender a agenda ambiental.
Mas o que se vê na prática levanta questionamentos inevitáveis: pode-se chamar de defesa ambiental a política que permite a descaracterização de áreas verdes? É coerente o discurso com a prática adotada?
Não nos parece.
A imagem internacional e o efeito colateral
E aqui reside um ponto crucial. Ainda bem que essa denúncia agora ganha o mundo.
Em inglês. Para um público internacional. Fora do controle da narrativa local.
Porque o prefeito Eduardo “Motosserra” Paes tenta construir, no exterior, a imagem de um estadista moderno — algo que, evidentemente, dialoga com projetos políticos mais ambiciosos, como sua futura candidatura à Presidência da República.
Mas há um problema: a realidade começa a aparecer. E, agora, em inglês.
O herdeiro político e o risco da continuidade sem freios
E, agora, com Eduardo Paes deixando na Prefeitura um substituto de pouca experiência, soma-se um elemento adicional de preocupação. Mais do que a inexperiência, o que se desenha é um cenário de continuidade integral do modelo atual de poder — não apenas no plano político, mas também nas diretrizes de gestão e nas escolhas estratégicas que vêm sendo duramente questionadas.
E mais: enquanto Eduardo Paes ensaia levar seu modelo de poder imperial (que tenho demonstrado em outros artigos), para o governo estadual, tudo indica que buscará também transportar consigo o mesmo modelo de intervenção urbana que tem sido apontado como agressivo ao meio ambiente, marcado por decisões que colocam em risco áreas verdes e o patrimônio natural da cidade.
Seu sucessor, por sua vez, ao que tudo indica, limitar-se-á a preservar esse modelo no plano municipal — não como ruptura, mas como continuidade. Aliás, essa percepção encontra eco na própria declaração pública do novo prefeito, conforme registrado pelo jornal O Globo, em matéria de 21 de março: “No discurso, o novo prefeito afirmou que sua gestão será de continuidade, sem rupturas ou mudanças no atual desenho político.”
Ou seja: Não haverá mudança de rumo! Não haverá revisão de práticas! Não haverá inflexão institucional!
Haverá, ao que tudo indica, continuidade — integral e deliberada — do modelo vigente. E é exatamente aí que reside o maior risco. Porque, somada à inexperiência administrativa, começa a ganhar notoriedade, nos bastidores, um traço preocupante do novo Prefeito: um estilo de relacionamento político marcado pela prepotência, pela dificuldade de diálogo e por uma condução que, em vez de construir pontes, tende a tensionar relações institucionais.
Não se trata apenas de falta de traquejo — algo compreensível em quem chega agora ao centro do poder. O que se percebe é algo mais profundo: uma postura que revela certo desapreço pela negociação democrática com os funcionários municipais, com a sociedade e com os políticos, como se a autoridade do cargo pudesse substituir a necessidade de ouvir, articular e respeitar divergências.
Na política, esse tipo de comportamento costuma cobrar um preço alto — e, quase sempre, mais cedo do que se imagina. Tanto que já se comenta, nos corredores do poder, à boca pequena, em tom simultaneamente irônico e apreensivo, a existência de um verdadeiro “balcão de apostas” sobre quando surgirá o primeiro pedido de impeachment.
Quando o mundo passa a observar o Rio
A tradução do artigo pelo RioOnWatch marca um ponto de inflexão. Não se trata mais de uma crítica isolada ou local. Trata-se de uma denúncia que começa a circular globalmente. E isso muda tudo.
Porque, como a história ensina que governantes podem controlar narrativas internas, mas não conseguem conter, indefinidamente, a repercussão internacional.
O Rio de Janeiro — sua natureza, sua paisagem, sua identidade — não pode ser tratado como mercadoria. E, felizmente, há quem esteja disposto a dizer isso em português e agora também em inglês. E, pelo que se vê, não vão se calar.
Ainda bem!
