Prefeitura do Rio: ciência meteorológica para quê?, de Antônio Sá

No último dia 29 de julho, a Cidade do Rio de Janeiro foi assolada por um vendaval de proporções gigantescas. O fenômeno climático não se restringiu aos cariocas, conforme se sabe. Os governos foram criticados por não emitirem alertas a respeito.

Nesta semana os avisos soaram de madrugada, pelos telefones celulares, durante três dias seguidos. Os ventos esparsos ficaram aquém do alarmado. Aulas foram suspensas. Empresas dispensaram seus funcionários bem cedo. Espetáculos culturais foram cancelados.

Para maior espanto, a Prefeitura decidiu contratar os serviços de uma entidade espiritual – através de seus auto-declarados prepostos terrestres – para interceder pelas terras cariocas.

Cabe indagar se o objetivo é impedir as intempéries quando o município falhar ao deixar de alertar, ou pedir que os estragos aconteçam quando os alarmes informarem que o perigo está a caminho, para comprovar a eficiência dos sistemas de controle e da própria Prefeitura.

Urbe CaRioca

Prefeitura do Rio: ciência meteorológica para quê? O Prefeito TikTok chegou — quando falta estadista e sobram negacionismo e espetáculo

Antônio Sá, Fiscal de Rendas aposentado do Município do Rio de Janeiro. Ex-Subsecretário de Assuntos Legislativos e Parlamentares do Município do Rio de Janeiro. Bacharel em Direito e Economia.

Quando a realidade já não basta, chama-se o sobrenatural

Segundo reportagem de O Globo de 7 de agosto de 2026, a Prefeitura do Rio acaba de renovar sua parceria com a Fundação Cacique Cobra Coral (FCCC) para tentar minimizar a ocorrência de fenômenos climáticos na cidade.

Não é piada. Também não é uma postagem humorística nas redes sociais.

É a Prefeitura do Rio de Janeiro.

O acordo foi firmado pela GeoRio e vai durar 25 anos, até 2051. Não haverá pagamento à Fundação, é verdade. Portanto, o problema aqui não é desperdício de dinheiro público com a entidade.

O problema é outro — e talvez seja ainda mais constrangedor: é o poder público, em pleno século XXI, emprestando sua chancela institucional a uma prática sem comprovação científica de capacidade de alterar fenômenos meteorológicos.

E isso numa cidade onde chuva forte não é brincadeira.

É assunto de vida e morte.

Ciência para quê? Temos o Cacique

O próprio acordo, segundo a reportagem, tem como finalidade “minimizar a ocorrência de possíveis fenômenos climáticos” no município. A GeoRio deverá informar à Fundação sobre as adversidades e, depois que elas terminarem, comunicar o encerramento da situação para que a entidade suspenda sua “operação”.

É nesse ponto que a história começa a adquirir ares de roteiro de humor mórbido.

O Rio dispõe de engenheiros, meteorologistas, geólogos, técnicos da Defesa Civil, radares, sistemas de alerta, centros de monitoramento e universidades.

Temos conhecimento acumulado sobre drenagem urbana, contenção de encostas, ocupação do solo, mudanças climáticas e prevenção de desastres.

Mas, aparentemente, ainda sobrou uma cadeira à mesa para o sobrenatural.

A ciência vale até começar a chover?

Há uma contradição difícil de ignorar.

Durante anos ouvimos autoridades públicas defenderem — corretamente — que decisões de governo precisam se apoiar em ciência, evidências e conhecimento técnico.

Pois bem.

Ciência não pode ser bússola apenas quando convém.

Não existe comprovação científica aceita de que uma entidade espiritual possa deslocar tempestades, interromper vendavais ou modificar fenômenos meteorológicos.

Respeitar crenças religiosas e espirituais é uma coisa. É um dever constitucional. Mas transformá-las em instrumento formal de uma política pública é outra completamente diferente.

A própria literatura técnica já analisa criticamente, há muito tempo, as alegações de que ações sem comprovação científica seriam capazes de interferir em fenômenos meteorológicos.

Cada cidadão é livre para acreditar no que quiser.

O Estado, porém, tem outra obrigação: trabalhar com aquilo que pode ser tecnicamente demonstrado.

E o professor de Ciências explica isso como?

Há ainda uma categoria que deve estar particularmente intrigada com essa história: os professores de Ciências.

Imagine a situação dentro de uma sala de aula.

O professor passa meses ensinando às crianças e adolescentes como se formam as nuvens, o que são massas de ar, pressão atmosférica, umidade, frentes frias, tempestades e ventos. Explica que a meteorologia observa e mede fenômenos físicos, trabalha com modelos e probabilidades e aperfeiçoa suas previsões com dados.

A criança e o adolescente aprendem tudo direitinho.

Depois, chega em casa e descobrem que o Prefeito de sua cidade mantém formalmente uma parceria com uma fundação cuja atuação está associada à alegada “influência” não científica sobre fenômenos climáticos.

E o professor explica como?

Daqui a pouco, os professores podem começar a ficar preocupados com uma nova disciplina na rede municipal a ser imposta pelo Prefeito: “Influências não científicas sobre os fenômenos meteorológicos — teoria e prática”.

Já imagino a prova:

“Explique a formação de uma frente fria e indique em que momento devem entrar em cena os métodos sem comprovação científica.”

Parece piada. E deve continuar sendo apenas piada.

Porque o problema sério está na mensagem transmitida às crianças e aos adolescentes. Como ensinar o importante pensamento científico na escola municipal se o próprio poder público confere caráter institucional a uma prática sem comprovação científica para interferir no clima?

Imagine a cabeça de uma criança ou de um adolescente tentando conciliar aquilo que seu professor ensina em sala com aquilo que vê o Prefeito fazer.

Isso, sim, deveria preocupar quem vive dizendo defender a ciência.

Negacionismo científico não deixa de ser negacionismo porque vem acompanhado de vídeos simpáticos, likes e palminhas nas redes sociais.

Não começou agora

Também seria injusto fingir que essa história nasceu ontem.

A relação da Prefeitura com a Fundação atravessa diferentes administrações. Os primeiros convênios remontam à gestão de Cesar Maia, nos anos 1990.

Quando Eduardo Paes se preparava para assumir a Prefeitura pela primeira vez, em 2008, chegou a ser anunciado que a parceria não seria renovada por ser considerada desnecessária. Depois de um forte temporal, a decisão mudou e a relação acabou sendo mantida.

Portanto, não se trata de uma excentricidade surgida em 2026.

É uma excentricidade que conseguiu sobreviver a prefeitos, mandatos e décadas.

E talvez isso torne tudo ainda mais surpreendente.

Do município para o estado: o céu é o limite

E há uma perspectiva ainda mais curiosa. Eduardo Paes deixou a Prefeitura para disputar o governo do Estado do Rio de Janeiro. Se vencer a eleição, será que levará também para o Palácio Guanabara essa “peculiar” experiência administrativa sem respaldo científico?

Porque, seguindo a lógica, por que limitar a atuação da Fundação Cacique Cobra Coral às fronteiras do município?

Se Eduardo Paes, como prefeito, considerou razoável manter esse tipo de parceria no Rio, talvez, caso seja eleito governador, resolva ampliar a experiência para os 92 municípios do Estado. Afinal, para um governante TikTok, o céu — literalmente — parece não ser o limite.

Serão 92 municípios, uma extensa faixa litorânea, regiões serranas, baixadas, rios, encostas e todo tipo de fenômeno meteorológico para “administrar”, ao arrepio do conhecimento científico construído, testado e consolidado ao longo de décadas de estudos, pesquisas e observações.

O que já soa insólito numa prefeitura ganharia proporções ainda mais extraordinárias em um governo estadual.

Quem sabe teríamos até um Centro Estadual de Métodos Meteorológicos sem Comprovação Científica, convivendo lado a lado com meteorologistas, engenheiros, geólogos e técnicos da Defesa Civil. A ciência faria as previsões; o governante TikTok cuidaria do espetáculo.

Naturalmente, isso é uma ironia. Não há como saber se Paes, caso eleito governador, faria qualquer acordo semelhante. Mas, diante de uma parceria municipal que acaba de ser firmada até 2051, convenhamos: a própria realidade resolveu competir com a sátira.

Governante TikTok ou estadista?

E chegamos ao ponto que mais me incomoda.

Estamos vivendo a era do governante TikTok.

É a política transformada permanentemente em espetáculo. Tudo precisa virar vídeo. Tudo precisa de uma gracinha. Tudo precisa produzir uma frase de efeito, uma dancinha, uma postagem, likes, compartilhamentos e palminhas.

Governar parece ter se tornado também um exercício permanente de chamar atenção.

Às vezes fico com a impressão de que certos governantes sofrem de uma necessidade quase compulsiva de aparecer. Como se governar silenciosamente, resolver problemas e entregar resultados já não bastasse.

Mas existe uma diferença enorme entre ser popular nas redes sociais e ser estadista.

Estadista não precisa ser protagonista de todos os vídeos. Precisa fazer a cidade funcionar.

Enchentes e mortes ocasionadas por elas não deveriam render dancinha e piadinhas.

E há um limite para a brincadeira.

No Rio, temporais podem provocar alagamentos, deslizamentos, destruição e mortes.

Isso não é conteúdo.

Não é meme.

Não é oportunidade para engajamento.

Não é assunto para disputar likes e palminhas na internet.

Quando uma encosta desaba ou uma rua se transforma em rio, não adianta algoritmo, postagem engraçadinha ou performance para câmera.

O cidadão espera que o poder público tenha feito antes aquilo que estava ao seu alcance: limpeza e ampliação da drenagem, conservação de rios e canais, contenção de encostas, planejamento urbano, sistemas de alerta, fiscalização, obras e preparação da Defesa Civil.

É para isso que existe governo.

Daqui a pouco vem a dança da chuva?

Se continuarmos nesse ritmo, não será surpresa abrir as redes sociais da Prefeitura e encontrar o prefeito fazendo uma dança da chuva.

Mas imaginar um prefeito fazendo uma versão para redes sociais, entre uma legenda engraçadinha e outra, dá a medida da confusão entre espetáculo e administração pública que estamos criando.

Só faltaria: “Galera, temporal chegando! Bora fazer a dancinha!”

Milhares de curtidas.

Corações subindo pela tela.

Palminhas.

E a cidade continuaria precisando de drenagem.

A cidade precisa de estadista, não de influencer

O convênio com a Fundação Cacique Cobra Coral não custa dinheiro aos cofres públicos. Que isso fique claro.

Mas nem tudo que não custa dinheiro não tem custo.

Existe o custo da mensagem transmitida pela administração pública.

Existe o custo de banalizar a fronteira entre crença e ciência.

E existe, sobretudo, o risco de transformar assuntos absolutamente sérios em mais um capítulo da política-espetáculo.

O Rio não precisa que alguém prometa conversar com as nuvens.

Precisa estar preparado quando elas chegarem.

Porque chuva forte, enchente, deslizamento e morte não são brincadeira de internet.

Governar uma cidade como o Rio exige planejamento, conhecimento técnico, responsabilidade e seriedade.

Sinceramente, essa necessidade de transformar tudo em espetáculo é coisa de adolescente querendo aparecer, não de estadista.

E, se a moda pegar, talvez o próximo passo seja dispensar a previsão meteorológica.

Basta olhar o TikTok.

Se o prefeito aparecer no TikTok ensaiando a dança da chuva, deixe-o dançar. Para saber o que o tempo nos reserva, consulte a meteorologia. Ela pode até errar, mas ainda é muito mais confiável do que a meteorologia marqueteira de um governante TikTok. A ciência agradece.

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