A derrubada de dezenas de árvores no Buraco do Lume para dar lugar a mais uma torre residencial no Centro do Rio recoloca em evidência um dos principais dilemas urbanos da cidade: até que ponto projetos de revitalização podem avançar sobre áreas verdes consolidadas, incorporadas à paisagem urbana e utilizadas permanentemente pela população carioca em nome da expansão imobiliária. Embora o empreendimento esteja amparado por decisões judiciais e licenciamento da Prefeitura, a remoção de 58 árvores em uma das regiões mais densamente urbanizadas do Rio simboliza a perda gradual dos poucos espaços de respiro ambiental restantes no coração da capital fluminense.
O episódio também expõe as contradições do próprio projeto de recuperação do Centro. Enquanto o programa Reviver Centro busca estimular moradia e ocupação urbana em uma região esvaziada, cresce a percepção de que interesses econômicos e pressão do mercado imobiliário têm prevalecido sobre debates mais amplos sobre sustentabilidade, preservação paisagística e qualidade de vida.
As compensações ambientais previstas pela construtora não eliminam o impacto simbólico e urbano da supressão das árvores, sobretudo em uma cidade marcada historicamente pela dificuldade de equilibrar crescimento urbano e preservação ambiental.
Urbe CaRioca
Construtora dá início ao corte de árvores no Buraco do Lume para construção de torre residencial
Ao todo, 58 das 71 árvores existentes no terreno serão removidas para viabilizar a construção do empreendimento
Por Victor Serra – Diário do Rio

A construtora Patrimar iniciou, na tarde desta quinta-feira (28/05), a derrubada de parte das árvores do Buraco do Lume, no Centro do Rio, após a Justiça revogar a liminar que suspendia o licenciamento do polêmico residencial Connect Square, empreendimento ligado ao programa Reviver Centro.
Ao todo, 58 das 71 árvores existentes no terreno serão removidas para viabilizar a construção da torre residencial, que terá 24 andares e mais de 600 unidades habitacionais. O terreno possui cerca de 6 mil metros quadrados, embora a edificação ocupe pouco mais de 2,5 mil m² da área total.
A liberação ocorreu após decisão da juíza Neusa Regina Larsen de Alvarenga Leite, da 14ª Vara de Fazenda Pública, que revogou, na terça-feira (26/05), a liminar obtida em ação movida pelo deputado federal Chico Alencar (PSOL). O parlamentar questionava principalmente o licenciamento ambiental da obra e a retirada das árvores da área.
Na decisão, a magistrada afirmou não ter identificado irregularidades no processo conduzido pela Prefeitura do Rio. Segundo ela, os pareceres técnicos anexados ao processo indicam que não haverá supressão de espécies da Mata Atlântica e que o projeto prevê compensações ambientais, incluindo transplante de árvores, redução de gabarito da torre e preservação de exemplares de pau-brasil existentes no terreno.
“Isso é lamentável. Era um dos últimos respiros verdes do Centro da cidade, e agora vai dar lugar a mais um espigão no Rio de Janeiro. A especulação imobiliária está mais uma vez ditando os passos da nossa cidade”, afirmou a ativista ambiental Isabelle de Loys, que esteve no local durante o início do corte das árvores e disse ter ficado impactada com a cena.
Compensação ambiental
Como o Diário do Rio mostrou no início desta quinta-feira, a construtora iniciou uma ofensiva para tentar reduzir a pressão em torno do empreendimento e instalou novos tapumes no entorno da obra com placas destacando as medidas compensatórias previstas para o projeto. Em meio a pichações contrárias ao residencial, os avisos informam que a compensação ambiental será realizada integralmente por meio dos programas Planta+Rio e Centro+Verde, com plantio de árvores em bairros da região central.
Segundo documentos analisados pelo jornal, o plano prevê intervenções no Centro, Lapa, Bairro de Fátima, Castelo, Gamboa, Saúde, Santo Cristo, Cidade Nova, Catumbi, Estácio e Rio Comprido.
