Um Natal longe do meu Rio

CrôniCaRioca,  de Andréa Redondo, Natal/2017

Pela primeira vez nas minhas mais de seis décadas de vida, passo o Natal fora da minha cidade natal, o Rio de Janeiro. Circunstâncias me trouxeram a Londres para participar de um outro feliz evento natalino. Tal como em 2013, mais uma vez, meu presente de Natal chegou mais cedo!

Aqui, em vez de shorts, biquínis e vestidinhos leves, imperam casacos, cachecóis, gorros e botas. No frio do hemisfério norte Papai Noel deve sentir-se confortável, na roupa vermelha adornada com pele branca! No Rio, só com ar condicionado![...] Leia mais

ELOGILDA, RECLAMILDA, RIO EM DEZEMBRO

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Internet
As amigas se encontraram no Centro, perto da Praça Mauá, “Oi, que saudade!”, dois beijinhos cariocas…
RECLAMILDA – Falta muito até a Praça, Elô! Dezembro no Rio, no Centro, que loucura, que calor! Será que a gente aguenta? A Rio Branco toda quebrada. Quer ver mesmo a reforma da Mauá, conhecer o tal museu novo?
ELOGILDA – Estamos quase chegando, Rê. Claro que aguentamos! O Rio está cada vez mais lindo, vale a pena! Nesta época é só animação, festas, presentes, Natal pertinho, água do mar igual ao Caribe, vi em fotos… E o calorzinho, que gostoso! Olha aqui, trouxe dois leques! Otimismo!
Crédito: Guto Costa

RECLAMILDA – Só você, Elô… No Metrô eu congelei, na rua o asfalto se derrete, 40 graus, vou ter pneumonia… Tá bem, tá bem, nada de falar sobre Linha 4, Linha 2, engarrafamento, poluição, gabaritos, inflação, pega-ladrão, corrupção, escolas ruins, hospital fechado, crise, dengue, zika… Faz de conta que está fresquinho, não estou com falta de ar! É Natal, né?


ELOGILDA – Agora eu gostei do papo alto astral. Mudando de assunto, já viu aquele filme lindo sobre o Rio, São Sebastião, a Construção de uma Cidade, vale a…


RECLAMILDA – Elô, olha, olha quem está ali! Pensei que ela estivesse fora do Brasil! Nossa amiga Ana Lisa! Ana Lisa!!! De volta ao Rio?

ANA LISA – Meninas que bom encontrar vocês! Vim só matar saudades, por uns dias… Quero aproveitar para conhecer a Praça Mauá reformada, os museus, dar uma volta no Centro. Depois, para o Galeão! Desta vez sem tiros na Linha Vermelha, espero! Pena que não tem Metrô até lá.

ELOGILDA – Barulho de fogos de artifício, por certo, querida.

RECLAMILDA – (suspiro) Nós também vamos ao museu que parece uma lacraia branca! Dizem que custou uma nota preta… Vamos juntas! Lisa, você que é “antenada”, conta o que acha sobre a situação do país, do Rio?

ELOGILDA – Deixa a Lisa, Rê! Ela veio passear. Além disso, a “situação” está muito boa! Que lacraia, implicante? O museu é lindo, parece que voa, voa para o futuro! Arquiteto renomado. Investimento em cultura é caro mesmo, ora!

ANA LISA – (para Elogilda) Não se preocupe, Elô, deixe a Rê à vontade! (para Reclamilda) Rê, vamos falar de Brasil outro dia? Quanto ao Rio… Bom, o Chacrinha não balança mais a pança, o Rio de Janeiro Continua Lindo, mas tem muito o que melhorar.



Tim Maia – Aquele Abraço – 1993 – Youtube


RECLAMILDA – Também acho! O que consertar primeiro?

ANA LISA – Hum…  Assistência Médica, Transporte, e Ensino Público de qualidade, faltam os três. Um sozinho não basta. A Segurança também vai mal.

ELOGILDA – Você está fora há tanto tempo, como sabe tudo isso?

Foto: Urbe CaRioca


ANA LISA – Elô, com internet a notícia chega na hora! Tem as redes sociais… Aqui comigo foi real, problemas logo nos primeiros dias. Sair do aeroporto já foi um drama! Engarrafamento, arrastão… Depois pra mostrar no peito minha paixão pelo Rio, comprei uma blusa com um “CARIOCA” bem grande, pus sandália de borracha, fui ver o mar… De repente um pivetão passou de bicicleta, arrancou meu cordão dourado, me empurrou, perdi o equilíbrio, caí no chão, ganhei três arranhões, uns roxos, o coração na boca… Perdi a bijuteria, a sandália e a blusa, mas, como diz o ditado, “Vão-se os anéis…” Ganhei a vida!


RECLAMILDA e ELOGILDA – Caramba, que susto!

ANA LISA – Um moço que trabalha por perto disse que o grandão está sempre por ali sozinho ou em grupo. Depois de ser ameaçado com revolver, por um deles, quando a turma chega fica logo de costas pra não ter que testemunhar!

RECLAMILDA – E o que você fez?


ANA LISA – Analisei a situação, comprei outra sandália, fiz um B.O. na delegacia, pelo menos entra para a estatística. Vi seis pastas com fotos… Alguns parecidos, mas, impossível identificar… Ele usava boné…

ELOGILDA – Você perdoou o coitado, tenho certeza, Ana Lisa. É a falta de oportunidade, injustiça social, no fundo são meninos ótimos. Quem sabe ele até já se arrependeu?

RECLAMILDA – (suspiro) Lisa, o Rio tem jeito?

ANA LISA – Queridas, ninguém vai diminuir o amor que tenho pela minha cidade. Comprei outra blusa, já fui passear na Lagoa, vi a Árvore de Natal refeita – menorzinha e bem simpática, não atrapalha a vista do Cristo – e hoje vim ao Centro com ela. Olha aqui, que linda, já posso tirar o casaco!

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RIO: CRÔNICA VIVA, AGONIA, E ÊXTASE*

CrôniCaRioca
Natal 2014
Foto: Urbe CaRioca




Com o Rio à disposição não haverá papel em branco, terror de quem escreve profissionalmente ou por gosto, dizem por aí. Se faltar inspiração, rua! A crônica está pronta, é só traduzir.


De areia, pedras portuguesas, cimentado, asfalto, paralelepípedos, terra, conservado ou cheio de buracos, limpo ou sujo, somente o chão carioca já renderia muitos textos.

Se olharmos para cima outros tantos. O céu azul esplendoroso neste dezembro contraria o serviço de meteorologia e não anuncia a tormenta prometida há dias. Nas árvores, as orquídeas colocadas pela mão do homem, as flores do abricó-de-macaco exuberantes… Como andará o açacu de Copacabana? Passarinhos são poucos, poderia haver mais para me acordarem bem cedinho como nos tempos da Tamandaré, minha janela ao lado da casa de Herbert Moses, um casarão cercado de árvores onde hoje fica o nº 200, espigão em desarmonia com os outros prédios da Praia do Flamengo.

Benesses urbanísticas dos anos 1970 perpetuadas no tempo…

Mais alto ainda, gaivotas procuram cardumes, mergulhos certeiros garantem a sobrevivência e a volta do bando para casa. Onde? Biguás no sentido contrário desenham a letra “V” no céu, buscam a Lagoa Rodrigo de Freitas. Formação perfeita – não batem uns nos outros – bem poderiam ensinar aos motoristas cá em baixo as distâncias mínimas de segurança, um dirigir elegante!

Na altura mediana acima da linha do horizonte a arquitetura não agrada, salvo exceções. O Rio de Janeiro deveria ter construções mais bonitas. Quem sabe a paisagem assombrosamente bela fez o homem achar que não precisava de mais nada? No caso do Leblon e de Ipanema, prédios singelos foram protegidos, simples, sim, mas memória urbana viva, tal como em Santa Cruz, Gamboa, Laranjeiras, Botafogo, Marechal Hermes e muitos outros bairros. O último cinema do Leblon, não. Poderá ir abaixo, enquanto outros, mesmo sem uso, foram tombados quase que ao mesmo tempo em que o do bairro famoso deixou de ser bem cultural protegido.

Olhar para frente pode ser desanimador. Aqui na Zona Sul a população de rua, que não para de crescer, aumenta mais ainda com a proximidade das Festas. São grupos enormes de jovens, a maioria moças fortes de aparência saudável, aspecto que nada garante, é verdade. Elas se sentam no chão, sempre à porta de bancos ou farmácias. Outras vezes andam para abordar os passantes. Pedem com jeito de lamento. Sem ter resposta, a expressão muda até o pedido seguinte, quando os olhos caídos e o tom de sofrimento ressurgem. No final do dia se reúnem e voltam para casa, pois casas todos têm, precárias é certo. Levam sacolas enormes com fraldas, leite, roupas e comida. Vêm e vão em geral às sextas e sábados. Em dezembro, todos os dias.

Entre as muitas reflexões que as cenas despertam uma se sobressai. Todas as moças fortes carregam crianças no colo. Filhos, sobrinhos, irmãos, empréstimos… Não se sabe. As idades variam entre 3 meses e 5 ou 6 anos, os maiores vendem balas.

Há poucos dias a sensação térmica na Cidade Maravilhosa foi de 46º. Na porta da farmácia, duas moças/mulheres e dois nenéns: 3 e 5 meses. É inconcebível colocar bebês e crianças um pouco maiores em situação de risco deliberadamente.

Um momento. Quem as põe em risco? Elas mesmas ou nós todos? Tivemos sorte e elas não, ou o que faltou? Responsáveis, casa, instrução, trabalho, qualificação, orientação, família, valores? Políticas públicas, mesmo abrangentes e eficientes, desaparecem frente ao crescimento exponencial de tantos problemas.

As cenas que entristecem e ao mesmo tempo revoltam deixam qualquer um cabisbaixo. E dali, novamente ao olhar o chão, um fio de esperança no bilhete colado na pedrinha portuguesa: “Só vivemos uma vez”, dizem as letras de forma. Mais três passos e o confiante carioca deixou outro papelzinho: “Aproveite a vida”.

Leblon, Rio de Janeiro, Dezembro 2014
Foto: Urbe CaRioca

Se as moças estão aproveitando a vida, temo que não, mas fazem com ela o melhor que conseguem no momento. Se houver alternativa, viver será melhor. Ensinarão novos valores àquelas crianças tão pequenas e indefesas. Terão um futuro.


A desigualdade social pode ser combatida de muitas formas. A principal, nesse Brasil tão rico de tantas coisas, é canalizar os recursos públicos para onde eles precisam realmente ir, impedir desvios e perdas que, ao não serem aplicados em escolas, hospitais, equipamentos culturais e ações pela segurança pública, indiretamente matam o futuro de tantos.



Resta ir em frente com olhar atento em todas as direções.

Paz no Natal, Feliz 2015 e um bom futuro para todos os cariocas e brasileiros.

Urbe CaRioca

 
*NOTA: O complemento do título é emprestado do magnífico filme Agonia e Êxtase, de 1965, dirigido por Carol Reed, que narra a história da pintura da Capela Sistina, trabalho para o qual o Papa Julio II contratou Michelangelo Buonarrotti. Charleston Heston faz o papel do artista e Rex Harrison encarna o Papa. Não se sabe se o serviço foi superfaturado. Mas o legado é verdadeiro.

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