Detroit, Acapulco e o Rio: quando a história insiste em nos alertar, de Hugo Costa

Cidades não entram em declínio de forma repentina. Antes que a decadência se torne evidente, acumulam-se sinais de alerta: uma economia que perde dinamismo, investimentos que deixam de chegar, problemas estruturais que se agravam e escolhas que privilegiam soluções de curto prazo em detrimento de uma estratégia consistente de desenvolvimento. A história mostra que esses processos dificilmente são inevitáveis; na maioria das vezes, são o resultado de decisões — ou da ausência delas.

Neste artigo, o geógrafo Hugo Costa destaca que Detroit e Acapulco seguiram caminhos distintos, mas terminaram expondo a mesma fragilidade: a dependência excessiva de um único modelo de desenvolvimento. Uma viu sua prosperidade ruir com o esvaziamento da indústria; a outra descobriu que a força do turismo não é suficiente quando a degradação institucional e a violência avançam. O Rio de Janeiro não é uma cópia de nenhuma das duas, mas reúne sinais que tornam essas experiências um alerta difícil de ignorar.

Urbe CaRioca

Detroit, Acapulco e o Rio: quando a história insiste em nos alertar

Detroit e Acapulco são exemplos de trajetórias diferentes que chegam à mesma conclusão: quando uma cidade aposta todas as suas fichas em um único caminho, torna-se vulnerável

Por Hugo Costa – Diário do Rio

Link original

As cidades raramente entram em declínio por falta de avisos. O problema é que, muitas vezes, escolhem ignorá-los.

Detroit e Acapulco são exemplos de trajetórias diferentes que chegam à mesma conclusão: quando uma cidade aposta todas as suas fichas em um único caminho, torna-se vulnerável.

Detroit foi vítima da desindustrialização. Durante décadas, sua prosperidade esteve ligada à indústria automobilística. Quando as fábricas migraram para outras regiões e países, desapareceram milhares de empregos qualificados, caiu a arrecadação, reduziram-se os investimentos públicos e a cidade iniciou um longo processo de degradação. A principal lição não é sobre automóveis, mas sobre o impacto que a perda da base produtiva provoca em toda a economia urbana.

O Rio de Janeiro conhece esse fenômeno. Ao longo das últimas décadas, assistiu ao enfraquecimento de sua atividade industrial, perdeu empresas, empregos de maior qualificação e capacidade de gerar riqueza. A desindustrialização não produziu aqui o colapso vivido por Detroit, mas reduziu um dos pilares que sustentavam a economia da cidade.

Era justamente nesse momento que o Rio deveria ter buscado reconstruir sua base produtiva, investindo em inovação, tecnologia, economia do conhecimento e novos setores industriais.

No entanto, a resposta escolhida seguiu uma direção diferente.

Passou-se a defender que a vocação natural da cidade seria, acima de tudo, o turismo. É aí que surge o paralelo com Acapulco.

A cidade mexicana acreditou que suas praias e sua fama internacional bastariam para garantir prosperidade permanente. Enquanto isso, problemas estruturais, desigualdades e a perda do controle do território avançavam. Quando a violência passou a fazer parte da imagem da cidade, o turismo, que deveria ser a solução, tornou-se uma das principais vítimas. Acapulco descobriu tarde demais que não existe destino turístico de sucesso quando o poder público perde espaço para organizações criminosas.

O Rio possui um patrimônio natural incomparável e o turismo deve continuar sendo um dos seus grandes ativos. Mas ele não pode ser apresentado como substituto da indústria, da inovação e da capacidade de produzir riqueza.

Os relatos recentes de camelôs sendo obrigados a pagar taxas impostas por criminosos para trabalhar até mesmo em praias mundialmente conhecidas revelam um problema que vai além da segurança pública. Eles evidenciam uma crescente dificuldade do poder público em exercer plenamente sua autoridade sobre o território. Quando atividades econômicas passam a depender da autorização de grupos criminosos, a cidade envia ao mundo uma mensagem muito diferente daquela estampada nos cartões-postais.

Detroit ensina que a perda da base produtiva enfraquece uma cidade. Acapulco ensina que privilegiar a imagem turística enquanto problemas estruturais e de governança territorial se agravam cobra um preço elevado.

O Rio de Janeiro reúne, hoje, sinais das duas histórias. Ainda há tempo para mudar o rumo. Mas isso exige reconhecer que desenvolvimento não se constrói apenas com belas paisagens. Constrói-se com uma economia diversificada e com um poder público — estadual e municipal — capaz de exercer sua autoridade sobre todo o território, sem espaço para o permanente jogo de empurra de responsabilidades. Quando uma parcela crescente dos novos empreendimentos imobiliários é concebida para o mercado de short stay e para uma economia voltada ao visitante, a cidade corre o risco de direcionar capital e solo urbano para um modelo que amplia a oferta turística, mas pouco contribui para reconstruir sua base produtiva. O Rio pode — e deve — receber turistas, mas não pode permitir que essa vocação substitua uma estratégia de desenvolvimento baseada na produção, na inovação e na geração de empregos qualificados. Ignorar esse alerta é correr o risco de repetir, por caminhos diferentes, erros que Detroit e Acapulco já demonstraram custar muito caro.

Compartilhar

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *