O RIO DE JANEIRO, O LABIRINTO DE FAJARDO, E AS PRAÇAS VENDIDAS

Passeio Público, mar.2016. Foto: Mário Rodrigues
Ontem o arquiteto Washington Fajardo nos brindou com um belo artigo publicado no jornal O Globo. O título sugestivo – Labirinto – escondia mais do que a dificuldade de encontrar uma saída para as dificuldades que vivem o Rio de Janeiro e os cariocas: em meio a percurso variado desde uma das muitas trágicas mortes recorrentes na cidade do Rio de Janeiro, o autor vagueia da zona sul à zona norte, pelos subúrbios cariocas, e pela região metropolitana; relata a degradação do outrora bucólico Largo do Machado, e lembra a imobilidade urbana – que, na nossa urbe, já é pior do que a paulistana -, tudo em meio a “décadas de crianças perdidas”.

Ao contrário de seus artigos usualmente sobre urbanidades em geral, o texto de Fajardo traz uma face muito dura da realidade visível do Rio em ruas e praças, a face de vidas sem futuro à vista. É prosa com um quê de poesia melancólica.

“Assustam-me crianças em sonhos de cola ziguezagueando pelas ruas. Ofereci um lanche. Mora onde? Nova Iguaçu. Conhece a praça tal? Sim. Fui eu que desenhei. Gosta de praça? Os olhos correm para lugar de tempo indefinido. Foi. Levou o salgado. Não terminou o suco. Vejo a notícia de uma praça sendo vendida. Não vi direito a reportagem. Estava com pressa”.

É verdade, muitos terrenos por lei destinados a praças, foram desafetados do uso público e vendidos. Do mesmo modo, outros imóveis que poderiam ser transformados em praças – próprios municipais e estaduais – foram vendidos para o mercado imobiliário, tema de vários posts neste blog, o último de fevereiro passado (PEDIDO AO PREFEITO 10 – PRAÇAS EM BOTAFOGO, etc.).

Para cumprir sua função, as áreas públicas e praças precisam ser espaços agradáveis, conservados e seguros. Para serem frequentadas por crianças e jovens com futuro, que também frequentem boas escolas, há que fazer muito mais.

O artigo do arquiteto Fajardo está abaixo.

 

Urbe CaRioca
Passeio Público, dez.2016. Foto: Marconi Andrade



Washington Fajardo, O Globo, 18/03/2017
Por que tamanha diferença na mobilidade urbana do Rio? Que fatos haviam levado a tal condição? Por que cidades são assim? Perguntas que eu queria equacionar

Ainda choro quando me lembro do menino João Hélio Fernandes Vieites.

Ele foi assassinado em 7 de fevereiro de 2007. Faz dez anos que morreu, arrastado pelas ruas entre Oswaldo Cruz e Cascadura.

A vida girou, e o horror da sua morte virou arquivo. Assim como hoje a paz no Rio parece converter-se em lembrança.

Minha enteada tinha 9 anos, e meu filho tinha 1 ano naquele dia da besta.

Fui morador do Campinho. Conhecia aqueles lugares.

(…)

Comentários:

  1. Prezada Sonia,
    Obrigada pelo comentário pertinente. Ao apresentar o artigo preferi ater-me ao modo como foi escrito, traduzindo algumas das faces cruéis da nossa cidade com sensibilidade em parágrafos bem escritos e algo poéticos. Não pude deixar de pensar o mesmo sobre as praças vendidas – inclusive foi a frase a respeito que inspirou a postagem destacando esse aspecto -, pois sei que o autor esteve na administração municipal durante os últimos 8 anos. Mas também sei que decisões do chefe do Executivo raramente são contestadas, sobretudo por quem faz parte das equipes. Pelo menos no caso do Cinema Leblon o autor e o Conselho de Patrimônio discordaram do destombamento. Não adiantou.

  2. O artigo foi interessante. Porém, não devemos esquecer que o autor Fajardo participou intensamente da administração municipal do Rio que vendeu todos estes terrenos que podiam ser praças, e alguns que até estavam programados para ser. Nestes anos como dirigente da Administração carioca não vi qualquer artigo ou reação do mesmo à espoliação dos espaços públicos. Ao contrário, aprovou, enquanto Presidente do IRPH, a privatização de parte substantiva do Parque do Flamengo – Marina da Glória – com o corte de cerca de 300 árvores, com a construção no local de um espaço de shows que perturbam continuamente o bairro, criação de estacionamento no parque para + de 500 carros, e uma enorme garagem de barcos de luxo. Falar e fazer parecem ser coisas distintas para o autor.

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