Quando eu era criança, pandemia não havia – 2020

CrôniCaRioca

À Maria Estela, a todas as crianças que nasceram no Rio de Janeiro neste ano de 2020 tão diferente, e a todos os cariocas pequenos que nos engrandecerão um dia.

Praça Paris, no bairro da Glória: a topiaria criava bichos que encantavam as crianças. Ao fundo, a mureta de granito que ladeava a Avenida Beira-Mar e a Praia do Flamengo.

 

Quando eu era criança, pandemia não havia. A bem dizer, assim se cria. Quando muito, endemia. Tempos antes, a influenza levou muitos, Deus os benza. Espanhola, o apelido, devagar, sem alarido, o meu Rio invadia, todo o Mundo já sofria.

Quando eu era criança, tive sorte – ousadia – uma França carioca, avenidas, Cinelândia, Paris com praias, montanhas. Na Praça, topiaria, que o olhar admirado, bichos verdes buscaria. Elefantes, passarinhos de folhinhas, que alegria, o Rio de Passos e Agache. Procurando, bastam passos, há quem ache.

Um Aterro então surgiu, e o mar se afastou. Pedras pretas, d’outro aterro, outro morro as cobriu, e a água me tirou. As muretas de granito o projeto preservou. Terra, lama, só mosquito se criou. O zumbido no ouvido, que tortura, o dia inteiro! Logo o pai, habilidoso, fabricou um mosquiteiro.

 

Mesmo dentro da Baía da Guanabara, a Praia do Flamengo sofria com ressacas, cujas ondas levavam areia para as pistas – O Globo (1957) Quando o mar estava calmo, surgiam as pedras que embasaram o aterro feito no início do século XX para a construção da Avenida Beira-Mar, e pouca areia restava. Da mureta de granito eu espiava a água batendo nas pedras e no molhe.
Avião Douglas DC-3, da Varig, no Aterro do Flamengo: pessoas fazem fila para visitar o interior da aeronave (02/10/1971) Foto: Rubens Fonseca / Agência O Globo Uma das atrações do “Aterro” do Flamengo, futuro parque com vegetação exuberante.

 

Do Aterro fez-se um parque, um jardim, sabedoria! No Flamengo, novidade, com a Lotta, loteria. Nova praia, muita areia, às crianças, a Cidade, e a Cidade das Crianças com barquinhos, avião. Tinha até campeonato, de peteca, é verdade. Na barraca, uma soneca. Tinha o moço do “pastel que pra ser gostoso é feito de madrugada, é feito da carne assada, bem moída e temperada”. À tarde, Cinema Azteca.

Quando eu era criança, o meu Rio era bonança, o futuro promissor, a cidade, esplendor. A coroa retirada, ao Planalto enviada – sob aplausos – decisão equivocada? Guanabara, esperança, manteria tal fulgor? Adiante, outra queda, de Estado a Município, que importa o nome – já dizia o Bardo – se mantido o bom princípio?

Hoje é Dia das Crianças, o meu Rio é cheio delas.

Gentes grandes – mandam elas! – façam certo o que é direito! Pelos filhos, os pequenos, quero um Rio iluminado. Combater a anomia, afastar a pandemia! Bastará fazer bem feito, volta o mundo encantado. Céu azul, cinza, ou rosado, ao olhar menino ou grande, será sempre estrelado.

Andréa Albuquerque G. Redondo

 

Praia do Flamengo, 1944 – As “pedras pretas”. Na década de 1950 havia uma pequena faixa de areia que as cobria. O mar levava a areia e as pedras ressurgiam em meio à areia molhada e lamacenta.
Praia do Flamengo (1956) Ao fundo ainda se vê o Morro da Viúva, que ao longo do tempo ficaria totalmente escondido por edifícios altos. À direita está o prédio que pertencia ao Clube Flamengo, cogitado para ser “hotel Olímpico” e hoje transformado em edifício residencial.
A construção do aterro do Flamengo. A água das chuvas misturava-se à terra nova que ficava encharcada e enlameada. Poças enormes se formavam, levavam semanas para desaparecer. Transformaram-se em criadouros de mosquitos que incomodaram os moradores do Flamengo durante muito tempo. Verdadeiras esquadrilhas sugadoras de sangue e produtoras de zumbido em uníssono.
Modelismo Naval – Uma das atividades para crianças e adultos que existiam no parque, hoje desativada.
Antiga foto do Cine Azteca, na Rua do Catete – A arquitetura diferente que remetia ao México intrigava e assustava. O programa para as crianças eram as matinês com sessões de desenhos animados de Tom e Jerry, aos domingos.

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