É urgente o debate público sobre o estádio do Flamengo, de Carlos Vainer

No artigo reproduzido a seguir, Carlos Vainer aponta a “verdadeira insanidade em termos de de distribuição de equipamentos públicos no espaço urbano”, demonstrada com vários aspectos que, por si, condenam a iniciativa do Prefeito do Rio.

A insanidade vem de alguém perfeitamente são. O Prefeito é um homem inteligente, capaz e experiente. O faz com consciência usando de sofismas como o da revitalização que a construção dará à região, uma falácia. Teremos, ao lado do Maracanã, um elefante branco que, nas palavras do articulista, será usado duas vezes por semana, se tanto. O chefe do executivo quer agradar a torcida rubro negra, à custa do solo urbano carioca e muitos recursos públicos.

Urbe CaRioca

É urgente o debate público sobre o estádio do Flamengo

Carlos Vainer – Blog Juca Kfouri

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Projeto do novo estádio do Flamengo – Imagem: Divulgação/Flamengo

É necessário barrar o escândalo da desapropriação de grande área no centro da cidade para entregar a um empreendimento privado – o estádio do Flamengo.

É mais um passo do prefeito, e da coalizão que o apoia, para privatizar a cidade. Leia aqui.

Além dos aspectos legais claramente expostos por Sonia Rabelo, há que levar ao debate público os nefastos impactos urbanísticos.

Caso concretizado o projeto, teremos mais um grande estádio de futebol na cidade, o quarto, que virá somar-se ao Maracanã, Nilton Santos e São Januário.

Este novo estádio será implantado a apenas quatro quilômetros do Maracanã, uma verdadeira insanidade em termos de distribuição de equipamentos públicos no espaço urbano. Tal proximidade implicará, de fato, na inviabilidade de eventos simultâneos nos dois espaços, em virtude de problemas de circulação.

Ademais, quando pensamos no uso efetivo de um estádio, nos damos conta de que estaremos reservando 90.000 m2 no coração da cidade para serem usados, no máximo, oito horas por semana (na hipótese, pouco provável, de haver dois jogos ou eventos por semana).

A isso o prefeito chama de “revitalização” do centro da cidade.

Outros usos, como residências, serviços vários, parques e jardins ofereceriam um uso muito mais intenso e coletivo desta enorme gleba no centro da cidade.

Se não bastasse, pela dimensão pretendida, teremos uma verdadeira barreira edificada, implantada no coração da cidade, com dramáticos impactos na mobilidade urbana… a menos que novos e custosos investimentos sejam feitos para reconfigurar a rede viária na região.

Como bem destaca Sonia Rabelo, onde está o plano urbanístico de que a implantação deste estádio seria a principal motivação?

Onde os estudos de impacto ambiental e vicinal?

Onde a justificativa para entregar a um empreendedor privado área de tal dimensão?

A área será entregue ao Clube de Regatas do Flamengo em ônus?

É bom lembrar também, que além do ônus da desapropriação, os custos de obras viárias e infraestrutura necessárias recairão sobre a prefeitura, isto é, sobre o fundo público, enquanto os benefícios, estes, serão privados.

Qual a necessidade disso?

Será que as escolas e postos de saúde, será que o saneamento público não deveriam ser prioridades para gastos da prefeitura?

Há que abrir o debate público e impedir que o prefeito se utilize da enorme simpatia popular pelo Flamengo seja utilizada para mais um esbulho ao patrimônio público e urbano do Rio de Janeiro.

*Carlos Vainer é economista, sociólogo, Doutor em Desenvolvimento Econômico e Social pela Université de Paris I – Panthéon/Sorbonne, Professor Emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (2022), Professor Titular- Colaborador do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (PPUR/UFRJ).

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