Palácio Capanema – outras opinões

O debate sobre a possível venda do Palácio Gustavo Capanema, famoso prédio modernista situado no Centro do Rio de Janeiro, Bem Tombado Federal e imóvel Próprio Federal, tomou as mídias sociais e a imprensa. A respeito publicamos “Palácio Gustavo Capanema é tema de audiência pública nesta segunda” e “Palácio Capanema nas palavras de Lia Motta e Sonia Rabello”. Em sua grande maioria, as manifestações foram contrárias à alienação.

Ao menos duas delas, todavia, opinaram na direção contrária: a de Cláudio Hermolin, presidente da Associação dos Dirigentes do Mercado Imobiliário (Ademi) e vice-presidente do Sindicato da Construção Civil (Sinduscon) no Rio de Janeiro, em entrevista ao jornalista Nelson Gobbi, quando fez contraponto à opinião de Marcela Abla, arquiteta e Conselheira do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB); e o editorial desta terça-feira, dia 24 de agosto publicado no Jornal O Globo.

Reproduzimos abaixo os dois textos, a título de divulgação e para enriquecer o debate.

Urbe CaRioca

Resistência à venda do Capanema ignora papel cultural do setor privado

Editorial O Globo – 24 de agosto de 2021

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Capanema | O Globo

Na gritaria que se armou contra a venda do Palácio Gustavo Capanema, símbolo da arquitetura modernista no Centro do Rio, havia argumentos razoáveis. O mais convincente é que ela interromperia uma reforma em andamento que prevê, além da preservação do edifício e das obras de arte a ele integradas, a destinação a atividades públicas, boa parte rentáveis, sem colocar no lugar uma estratégia equivalente. Infelizmente, o plano de vender o Capanema foi massacrado pelas razões erradas. Atacou-se a venda como se a transferência da propriedade ao setor privado equivalesse à destruição do patrimônio cultural. Nada mais distante da realidade.

Não faltam exemplos bem-sucedidos de monumentos arquitetônicos mantidos pelo setor privado. É o caso de um prédio igualmente importante na história da arquitetura brasileira: a sede do Museu de Arte de São Paulo (Masp), na Avenida Paulista. Projetada por Lina Bo Bardi, também é “objeto de estudo em faculdades”, “símbolo da cidade”, “tesouro da cultura”, “marco”, “patrimônio nacional”, “atração turística” e tudo o que se diz do edifício idealizado por Lucio Costa e outros modernistas sob supervisão de Le Corbusier.

O fato de o Masp ser mantido por uma instituição privada nunca diminuiu nenhum desses atributos. Pelo contrário. No mês que vem, começam as obras de seu anexo, orçadas em R$ 180 milhões, 90% garantidos via doações privadas. A previsão de entrega é em 2024. A reforma do Capanema já custou mais de R$ 100 milhões aos cofres públicos, dura sete anos — e o prédio segue fechado.

No mundo todo, empresas e fundações são essenciais para difusão da cultura e preservação do patrimônio. Os exemplos vão de Bilbao a Nova Délhi. Um dos ícones do modernismo americano é a rotunda que Frank Lloyd Wright projetou para o Guggenheim, museu privado em Nova York. O Met, principal museu nova-iorquino, é outro mantido pelo capital privado. Em São Paulo, depois da privatização do Banespa, seu edifício-símbolo, rebatizado Farol Santander, passou a receber milhares de visitantes. Também no Rio não faltam exemplos de obras arquitetônicas criadas ou preservadas com apoio do setor privado, caso do Museu de Arte do Rio (MAR) — parte dele fica num prédio tombado, o Palacete Dom João VI — e do Museu do Amanhã, projeto do espanhol Santiago Calatrava.

Antes de a comoção em torno do Capanema ganhar proporções histéricas, o secretário de Desestatização do Ministério da Economia, Diogo Mac Cord, disse ao GLOBO que “caso houvesse interesse da iniciativa privada em acolher o prédio, isso com certeza viria com uma série de encargos, inclusive a obrigação de abertura à população do jardim suspenso do Burle Marx, para visitação dos painéis de Portinari”.

É inevitável que a situação fiscal crítica da União continue a atrasar a reforma do Capanema. Foi por isso espantosa, no debate dos últimos dias, a ausência de defensores da venda do edifício, desde que em termos que garantam a preservação e o caráter público desse patrimônio cultural inestimável.

Concordamos em discordar: o governo federal deve vender o Palácio Gustavo Capanema?

Tema colocou em lados opostos Marcela Abla, do Instituto de Arquitetos do Brasil, e Cláudio Hermolin, da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário

Nelson Gobbi O Globo – 19 de agosto de 2021

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Marcela Abla, do Instituto de Arquitetos do Brasil, e Cláudio Hermolin, da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário Foto: Editoria de Arte

Transformar o Palácio Capanema na estrela do “feirão de imóveis” é uma forma de chamar a atenção da iniciativa privada ou demonstra desconhecimento sobre o seu valor arquitetônico e histórico?

Marcela Abla

Não imagino que se desconheça o valor histórico. É a edificação brasileira que mais aparece em livros de arquitetura mundo afora. Se foi uma estratégia, a notícia da venda acabou chamando mais a atenção de toda a comunidade arquitetônica internacional. Ele deve ser preservado como um patrimônio, ou seja, não pode ser vendido.

Cláudio Hermolin

Pode ser uma forma de solucionar um problema que não é só do Capanema. O poder público, em qualquer uma das esferas, não tem conseguido, pela falta de recursos, manter o patrimônio. Entendemos que parcerias público-privadas podem ser a melhor solução para esses ativos.

A venda é um meio de preservar o prédio ou isso deve ser de responsabilidade do poder público?

Marcela

Independentemente de estar nas mãos do governo federal, a sua função cultural e educativa deve ser mantida. Ele nasceu como sede do Ministério da Educação e foi a primeira edificação destinada a serviços públicos no mundo executada com toda a obediência aos princípios da arquitetura moderna de Le Corbusier. Foi o primeiro passo para a criação de conjuntos como a Pampulha ou Brasília.

Hermolin

Imaginar que o Estado vai ser capaz de atender a todas as demandas é uma utopia. Basta ver quantos prédios e terrenos públicos estão abandonados, o que gera outros problemas urbanos, como as ocupações irregulares. A iniciativa privada pode desonerar o Estado, para que ele invista em áreas como saúde, educação e segurança.

Há como garantir a preservação do prédio e de suas funções no contrato?

Marcela

O tombamento federal e o fato de ser considerado um patrimônio pela Unesco são reconhecimentos de todas as características originais. Então, como é possível imaginar alguma alteração para a iniciativa privada?

Hermolin

É possível pensar em modelos que garantam a preservação das características arquitetônicas e as áreas reservadas à visitação pública. É questão de colocar tudo no papel.

Como precificar o Capanema? Além de seu valor histórico, como avaliar os painéis de Portinari, o projeto paisagístico de Burle Marx, as esculturas criadas para o prédio?

Marcela

É impossível calcular o valor de um bem cultural como esse, que abriga várias expressões artísticas, da azulejaria às esculturas, além da sua própria relação com a cidade. O seu valor de fato é dado pela relação que cada um dos cariocas desenvolve com ele.

Hermolin

Em relação ao preço, o mercado é soberano. O valor do metro quadrado naquela área do Centro está dado, pode ter um acréscimo em relação às características do edifício, mas sem fugir da realidade. Temos aí o exemplo do Edifício A Noite, com boa localização (na Praça Mauá), mas que vai para o seu terceiro leilão.

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