Artigo: RIO DE JANEIRO, BÚSSOLA, TERRITÓRIO E PROJETO, de Eduardo Cotrim

Em novo artigo, o arquiteto apresenta considerações gerais sobre a formação de territórios – assim compreendidos como terras, ocupadas ou não, diante das mais diversas organizações administrativas – passeia por outros continentes e retorna à urbe carioca, com o olhar voltado especialmente para a gigantesca Zona Oeste da cidade, focado na Região Administrativa de Jacarepaguá.
Boa leitura.
Urbe CaRioca   
                                



Rio de Janeiro, bússola, território e projeto

Eduardo Cotrim

Parte I

Quando o Rio de Janeiro era mais alongado verticalmente, nos tempos de D. João VI, a cidade guardava maior correspondência dos pontos cardeais com o território, que possuía basicamente Norte e Sul. Seguramente mais Norte que Sul, ainda que num passado muito próximo, nem todos os mapas posicionassem o município segundo a orientação hoje esperada.


Planta da Cidade do Rio de Janeiro e uma parte dos subúrbios – 1885 a 1905.

Arquivo Digital BN
É certo que sempre existiu todo o restante, mas no início do século XIX, a Cidade continha-se em limites esfumaçados. Não se encontravam contornos nítidos a ocidente na cartografia geral, pois não havia propriamente uma cartografia geral, ao menos convincente, embora houvesse cartas específicas da atual zona Oeste, onde tudo que está lá desde Barra de Guaratiba até o município de Vassouras havia sido um dia a Fazenda de Santa Cruz, dos Jesuítas.­

Por outro lado, o esfumaçado Oeste, que existia muito fortemente no sítio, desbravado há séculos, era bem servido de rios por onde a madeira podia ser escoada rapidamente ao mar e deste, quem sabe, a outros mares. 




Carta da Fazenda de Santa Cruz – 18…? – Arquivo Digital BN  Abundancia de Madeiras preciosas, com a vantagem de hum facil transporte pelo Ribeirão das Lages, Rio dos Macacos e Guandu até entrar no Taguahy e d’este ao Mar.” (fonte do próprio mapa).

Nesses tempos, tampouco havia 
Leste na cidade. É verdade que até hoje o Rio não possui uma Zona Leste em relação ao Centro – por ser o Leste de águas salgadas – Centro que sempre foi de importância não cardeal, pois de fato representa o Leste no mapa da cidade.
Não se discute que no mundo das orientações urbanas o Centro prevalece sempre como o núcleo mais antigo, independente das bússolas, já que elas não são capazes até hoje de indicar o centro de qualquer território. Talvez essa incapacidade das bússolas seja motivo suficientemente forte para que as falsas orientações de inúmeras cidades sejam preservadas como patrimônio não magnético, inclusive as do Rio de Janeiro.


Caso a rosa dos ventos carioca (nomenclatura das zonas) em vigor fosse descompromissada com a história, em nenhuma hipótese indicaria o Oeste para a Barra da Tijuca, esticada ao Sul, nem para Bangu e boa parte de Campo Grande, que se encontram visivelmente ao Norte, ao mesmo tempo em que apontaria o Sudeste aos bairros da Zona Sul.


Interpretação expedita de orientação não tradicional do território da Cidade


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