TOMBAMENTO, A PANACEIA DO MOMENTO

A Bhering, A Estudantina… Que não se duvide, poderão vir o Santa Leocádia e os prédios da Rua da Carioca, estes tombados em nível estadual.  
                               Rua da Carioca, Centro. / Foto: Alessandro Costa / Agência O Dia
=&0=&  Caso aconteça, infelizmente o instituto do tombamento será usado outra vez de maneira questionável, retirando-se a seriedade de atos que visam proteger o patrimônio cultural desde a edição do decreto-lei federal nº 25, em 1937, até seus desdobramentos nas esferas estadual e municipal.     
Antiga Fábrica de Chocolates Bhering
Foto: Fabio Motta/AE no estadão.com.br
Primeiro foi a Antiga Fábrica de Chocolates Bhering, cujos decretos de tombamentoe declaração de interesse público para fins de desapropriação foram analisados por este blog em duas ocasiões: ANTIGAFÁBRICA BHERING, UMA CONFUSÃO ACHOCOLATADA e ANTIGA FÁBRICA BHERING, 2 – CONFETE PARA A MÍDIA.   Na ocasião foi explicado que não se tombam atividades, e que os decretos não tinham o dom de garantir nem a recuperação do imóvel nem a permanência dos inquilinos.   Tratou-se em verdade de um ato demagógico que serviu apenas para acirrar disputas judiciais entre os novos proprietários – compradores do prédio em leilão judicial -, os antigos donos – devedores do fisco -, e a própria prefeitura, esta devido à possível desapropriação, processo invariavelmente longo que nem sempre tem sucesso. Além, é claro, de ter travado a provável reforma do imóvel – preservado desde 1989 – conforme os novos donos haviam anunciado.  
Praça Tiradentes, sobrado, Estudantina
Foto: Berg Silva, 2007 / O Globo
 O segundo alvo foi o prédio da Praça Tiradentes onde funciona a famosa gafieira frequentada pelo não menos famoso Sr. Gileno, funcionário público discreto e leal, e dançarino de primeira! Outra vez tombamento e declaração de interesse público para fins de desapropriação; outra vez dívidas particulares; outra vez um despejo à vista: é o que nos diz a imprensa.    
Estudantina
Foto: Veja Rio
   
Condomínio Santa Leocádia
Site Câmara dos Vereadores
 Sobre o Condomínio Santa Leocádia, havendo uma negociação imobiliária em curso, é de se imaginar que o executivo municipal não interceda pelos inquilinos que igualmente foram despejados do conjunto de prédios escondido em um cantinho de Copacabana, “um paraíso” nas palavras de seus moradores. Mas, o legislativo já se adiantou com a apresentação de um projeto de lei para… tombar os imóveis, é claro!

Há poucos dias outra informação dá conta de que a Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência venderá vários sobrados da Rua da Carioca, entre 42 edificações situadas no Centro e na Zona Sul das quais a instituição pretende se desfazer, pela “urgente necessidade de quitar parte de seu passivo fiscal, tributário, previdenciário e bancário, e à continuidade das atividades do Hospital Venerável Ordem Terceira…”  Aqui, mais uma vez a prefeitura anuncia que, “se necessário, vai intervir até com a desapropriação dos imóveis”.  
Rua da Carioca, Centro
Foto: Domingos Peixoto / O GLOBO
Em que pese a importância das atividades, resta ao contribuinte indagar quais serão os limites para que a municipalidade interfira em assuntos que dizem respeito apenas a terceiros, em especial quando todos os imóveis mencionados, ou já estão protegidos pela legislação de patrimônio cultural – caso da Bhering e dos imóveis da Rua da Carioca -, ou existem normas que podem garantir a sua integridade, como é aplicável ao Condomínio Santa Leocádia e aos sobrados da Praça Tiradentes. Afinal, em última análise, a verba pública que garantirá as desapropriações nada mais é do que dinheiro que pertence a todos os cariocas. Mas, outro aspecto merece ser considerado. Diante da existência de inúmeros imóveis próprios municipais abandonados, cuja venda já foi anunciada, melhor faria a prefeitura se, em vez de gastar dinheiro com as desapropriações, alugasse aqueles imóveis para os artistas plásticos da fábrica de chocolates. Daria uso aos seus prédios abandonados ou subutilizados, garantiria espaços aos inquilinos despejados, incentivaria as artes plásticas, e não impediria o investimento previsto para o bairro da Gamboa, em processo de revitalização, com a reforma do prédio da antiga Bhering e a instalação de uma cervejaria, um centro cultural, teatro e lojas, conforme pretendido pelo empresário vencedor do leilão. *** NOTA: Após a publicação desse post foi noticiado que, segundo os compradores dos sobrados existentes na Rua da Carioca, há a possibilidade de que os inquilinos permaneçam nas lojas. A notícia é:

Inquilinos serão responsáveis por reformas nos casarios da Rua da Carioca[...] Leia mais

A ESFIHA CARIOCA

CrôniCaRioca



 
A ESFIHA DO LARGO DO MACHADO
Foto: Camila Redondo
   Que o Rio de Janeiro é acolhedor, ninguém duvida. A característica brasileira de receber estrangeiros desde os tempos coloniais – pelos mais variados motivos, às vezes nem tão nobres, – prosseguiu ao longo dos séculos com os imigrantes vindos dos quatro cantos do planeta, que povoaram o país com a mistura que todos conhecemos. A cordialidade com que o Brasil recebe os turistas do século XXI, entretanto, talvez seja ampliada no Rio, ou não seria ela a cidade mais simpática do mundo… As heranças diversas, misturadas sabe-se lá com que receitas, criaram iguarias, das quais às primeiras que vêm à cabeça são as portuguesas e as de origem africana, é claro. O que seria de nós sem um belo cozido, colorido, com tudo a que temos direito – não pode faltar o milho – e os doces de ovos da terrinha? Ou os quitutes ensinados pelos escravos, como o vatapá, o pirão, a carne-seca com abóbora, e tudo o que leva leite de coco? Uma paixão!  
COZIDO
Blog M de Mulher
Mas, há uma delícia de outra origem escondida em uma galeria comercial dos anos 1960 e muitos, no Largo do Machado, bairro do Catete: a Galeria Condor. Há quase 40 anos uma verdadeira romaria procura as esfihas e caftas com arroz de lentilha da lojinha, iguarias trazidas por sírios e libaneses para as terras cariocas. Bem, a comida é árabe, mas a loja é administrada por portugueses e os cozinheiros são legítimos brasileiros, nordestinos! Seu Arlindo está sempre lá. Se a gente pede um suco sem gelo e sem açúcar ouve “Manga 200!”. Custei a entender que era 100 + 100 = sem, sem: gelo e açúcar, óbvio!   
CINEMA CONDOR
Blog História do Cinema Brasileiro

Ao longo de várias décadas a galeria mudou muito. O cinema que lhe deu o nome acabou. Virou uma igreja… que também acabou. Muitas atividades comerciais foram substituídas, o que é normal diante das regras do mercado e das transformações urbanas da cidade.

 


CINEMA POLITHEAMA
Também ficava  no Largo do Machado
Blog Topclassic


Nessas mudanças houve um caso muito engraçado, que hoje seria uma atitude legítima em prol do meio ambiente e da reciclagem: o aproveitamento do letreiro de um estabelecimento comercial que ficava na sobreloja. 

Lá funcionava uma sapataria. O letreiro enorme foi criado à imagem e semelhança do nome da loja: sobre o fundo branco pregaram pezinhos estilizados verde-escuro que se sucediam formando um caminho sinuoso. À noite as várias ‘pegadas’ se acendiam, uma atrás da outra. O efeito do pisca-pisca era de um caminhar iluminado, feérico e rápido.
 
O nome da sapataria era ‘Passo a Passo’. 
 
A sapataria acabou e na loja instalaram uma pequena igreja. O dono foi econômico: tirou o nome da sapataria e escreveu “Siga os Passos de Jesus”. Os pezinhos continuaram a iluminar os que procuravam o caminho da salvação.
 

Mais adiante a igreja também acabou. No seu lugar entrou uma loja de meias. Os pezinhos, portanto, foram aproveitados mais uma vez, afinal, no depósito de meias havia meias de todos os tipos para todos os pés!
 

 

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