FRIO NO RIO, de Claudia Madureira

=&0=&=&1=&=&2=& Claudia Madureira é arquiteta e apaixonada pelo Rio de Janeiro. 
Participou de vários trabalhos, na área de urbanismo, durante carreira profissional dedicada ao setor público municipal.

Em suas palavras “uma andarilha”, reflete sobre a cidade nesta crônica “urbano-carioca” repleta de poesia, alguma preocupação e, sempre, esperança, escrita dois dias antes do início do Inverno ao sul do Equador.

Urbe CaRioca
Céu rosado, final de um dia no Rio de Janeiro.
Foto: Claudia Madureira, maio/2015


FRIO NO RIO =&4=& Essa é uma noite daquelas em que cariocas usam seus casacos cheirando a naftalina e cachecóis e comem fondue. Sim para os cariocas, faz frio esta noite. Dezoito graus, nosso limite antes das botas e casacos pesados. Pois eu sinto a noite benfazeja e tento pensar em coisas amenas, ainda que as notícias só apontem as más. Tento sentir um frio raro em minhas costelas e me consolo. =&8=&

RECLAMILDA E SÃO SEBASTIÃO – O METRÔ, A IMOBILIDADE, E A BARCA DA CANTAREIRA

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Vinte de janeiro, Dia de São Sebastião,santo padroeiro da Cidade do Rio de Janeiro.


São Sebastião, por Marco Palmezzano.
Wikipedia
Estou eu aqui de novo nesse Metrô, perdida em pensamentos enquanto o trem não anda… Sim, trem de Metrô, não trem daquele que já foi do D. Pedro e da Imperatriz Leopoldina, anda nos trilhos em cima da terra. Estou no outro, o vagão que anda por baixo da cidade igual minhoca, dizem que é “transporte de massa”. Deve ser mesmo porque estou aqui toda amassada, o ar-condicionado quebrou e a minhoca não anda. Ai, que calor! E nem encontro Elogilda para papear e me distrair as ideias!
Pois é, está paradinho aqui no túnel, não é na estação, não! O alto-falante avisou que tem que esperar desafogar o trânsito lá na frente… Não, não é ônibus, meu São Sebastião, é trem mesmo, mas de Metrô, no seu tempo não tinha nem um nem outro, aliás, nem tinha bonde…
Tá difícil ficar neste sufoco, viu? Tá bem, concordo, levar flechada no peito é pior, mas, sei não, isso aqui também é um sofrimento! Eu que desmaio à toa com falta de ar, que martírio! Hummm… Pensar em outra coisa? Tem que ser boa?
Ah! O trem andou!
Cadê Elô? Deve estar lá no vagão das mulheres, todo rosa, que vergonha… Um vagão “feminino” porque os homens não se comportam bem, onde já viu, padroeiro? Parece a piada de tirar o sofá da sala. Não sabe? Claro, me desculpe, esqueci que o senhor é santo, depois eu conto…
Quando eu era garota e os ônibus ficavam lotados, o trocador dizia “Um passinho à frente aí, por favor!”, o pessoal se espremia pra perto do motorista, a roleta rolava, e entrava mais gente no lotação, no ônibus, no ‘chifrudo’… Pois é, agora nem querem pagar passagem, querem de graça, “passe-livre”, fazem manifestação na rua… Bem que a passagem podia baixar de preço! Aqui nesse buraco de tatu sem trocador nem passinho à frente, uns homens empurram o povo vagão adentro, igual no Japão, e cabe mais gente.
Já viu sardinha em lata?
Pensar em coisa boa… Já sei! Elogilda que contou. Aquele pessoal da prefeitura, lembra, São Sebastião, que quer proteger o Rio mais do que o senhor – vê se pode? – convidou para outro “desafio”, justamente sobre Mobilidade Urbana! Parece bom, né meu santo? O povo dá ideia, o alcaide ouve, atende… Ora, pipocas, depois do fiasco que foi o do “legado olímpico” – desculpe a intimidade, chamar o senhor assim – mas será que é bom mesmo, SanSebá? A tal “mobilidade”, virou palavra da moda, na época da Copa só se falava nisso, e aqui o trem parou de novo, é só imobilidade!


Se a prefeitura quisesse ajudar mesmo não ficava fazendo brincadeirinha na internet, conversava com o pessoal do Estado e mandava completar a Linha 2 do Metrô até a Carioca e fazer a Linha 4 de verdade até à Gávea, pelo Humaitá e Jardim Botânico. Afinal, quem é que manda na Cidade?
Soube das novidades? Juntaram as Linhas 1 e  2, por isso estamos nesse sufoco aqui, tudo lotado! Tem mais, estão espichando a Linha 1 pra juntar com o pedaço da 4 da Gávea em diante, e a Linha 4 original foi rebatizada de Linha 5!
Isso não é rede, é nó górdio! Agora querem fazer a 3, até São Gonçalo, será que sai?
Não entendeu? Complicado? Depois mando uns mapinhas pro senhor aí no céu, vai ajudar!




Tem mais ainda.
A Estação Gávea só vai ficar pronta depois da Olímpiada. Por quê? Ora, só pode ser para facilitar a vida de quem for à Barra para os Jogos, os visitantes! Ao morador, nada! Não duvido que tenha bilhete especial e horário fixado para pegar o Metrô, muita segurança, tudo civilizado ‘pra inglês ver’.

Guaratiba, Campo da Fé, Julho 2013.
Imagem: Conexão Jornalismo

Não vão deixar acontecer de novo a confusão que aconteceu na Jornada Mundial da Juventude. O Metrô não deu vazão, os jovens desesperados na rua, lembra, meu Sebá? Quando o representante do seu chefe esteve por aqui, o Papa Francisco, naquele mês de julho em que choveu à beça, foi lama pra todo lado?!

Bom, olha a tal Mobilidade funcionando, ó, o trem andou, já quase chegando na Estação Carioca!



Por falar em carioca, o carioca é crédulo mesmo, veja a Elogilda, tão boa, mas tão ingênua, achando que esse metrô-tripa é para a população, que todos os ônibus vão ter ar-condicionado, que esse BRT resolve… Pode ter resolvido lá nas cidades pequenas, mas aqui? Faça-me o favor! Isso é i-m-e-d-i-a-t-i-s-m-o, fazer obra rápida e dizer que é eficiente! Ora, Transporte é coisa séria, é assunto de Estado, não pode ser projeto só de um governo…
E o povo acredita!
Hummmmm… Será que é por isso que o símbolo dos 450 anos é daquele jeito? Cá pra nós, não espalha pra ninguém, que cara de bocó!

Ai, desculpe! Era para pensar em coisa boa… Não há de ser nada, tudo vai melhorar, com muita fé a gente chega lá, veja que pensamento bom, SanSebá![...] Leia mais

PRÓXIMOS ASSUNTOS NO URBE CARIOCA


Com tantos assuntos urbano-cariocas em pauta e o Rio de Janeiro fervilhando, enquanto a bola rola preparamos uma lista com os temas a serem analisados nos próximos dias pelo Blog Urbe CaRioca, que inclui artigos enviados por colaboradores. Alguns já estão “no forno”, outros em fase de revisão ou de pesquisa.
Esperamos concluir todos. Sugestões e colaborações serão benvindas.

Para quem curte futebol, bom jogo, sem passar pelas peripécias de Mickey quando o Maraca ainda tinha a marquise estrutural de concreto, uma bela obra de Engenharia.


Urbe CaRioca

Internet


OK –A Pintura dos Arcos da Lapa > =&4=&
OK –A Torre no Sambódromo criticada por Ancelmo Gois =&6=&

Mães CaRiocas

CrôniCaRioca




Jardim Botânico, Rio de Janeiro
Best Brasil Blog
A notícia dizia que em uma região brasileira há 161 escolas com nomes de políticos locais e de seus familiares. São pontes, avenidas, ruas e diversos prédios públicos. Busca no site Google mostra 10 ruas batizadas com um mesmo nome, na região, e que a mãe do patriarca também foi homenageada: nomina escola, rua e bairro. A prática questionável de dar o nome da mãe a prédios públicos não é privilégio daquele lugar. Aconteceu em outros, mesmo que o único serviço relevante prestado ao Estado ou ao Brasil pela mãe amada tenha sido parir o filho e criá-lo, isto, uma obrigação. Sendo de tal grandeza o amor filial, deveria o político construir o que quisesse, desde que propriedade privada, com recursos próprios e não públicos, pregando então na fachada o nome que bem entendesse. Na Cidade do Rio de Janeiro é lei: se é nome de rua já morreu, e não pode haver duplicidade. O homenageado jamais o saberá salvo consiga se comunicar com o político benfeitor, do além. Pena, queria que uma escola municipal carioca tivesse o nome de minha Mãe, embora ela desgostasse do seu prenome. Porque pobre não deixa rastro, do avô italiano que veio tentar a sorte por aqui na virada dos séculos XIX-XX só posso supor que fosse do norte da Bota, pois filha e netos eram brancos, quase todos alourados de olhos claros, quem sabe traços herdados do antigo Império Austro-Húngaro. Minha Mãe era branquinha, loura, de olhos muito azuis, cor que variava entre os cinco irmãos que dormiam atravessados em uma cama de casal e dois menores, no chão. Pares castanhos e azuis eram dois de cada. Um par, verde. Dos outros dois, não sei, morreram cedo de tuberculose. Filha e netos do avô Vicente moraram na Gávea e no Leblon, nas primeiras décadas dos anos 1900, periferia, bairros da arraia miúda às vezes paupérrima que morava em favelas e cortiços – sobrados com subdivisões e “puxadinhos”. Eram trabalhadores, a mão-de-obra das fábricas de tecidos vizinhas: Corcovado, na Rua Jardim Botânico e Carioca, na Rua Pacheco Leão, da qual sobrou a antiga vila operária Chácara do Algodão, bem cultural tombado recém-descoberto pela classe média e artistas que buscaram o sossego do lugar. Dizem que minha avó, filha do italiano, era tão linda que na Fábrica a apelidaram de Estrela. Tinha os olhos verde-claro, amarelados.
Fábrica Carioca de Tecidos – Jardim Botânico, Rio de Janeiro
Fonte: www.museudohorto.org.br
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