Prefeitura do Rio: ciência meteorológica para quê?, de Antônio Sá

No último dia 29 de julho, a Cidade do Rio de Janeiro foi assolada por um vendaval de proporções gigantescas. O fenômeno climático não se restringiu aos cariocas, conforme se sabe. Os governos foram criticados por não emitirem alertas a respeito. Nesta semana os avisos soaram de madrugada, pelos telefones celulares, durante três dias seguidos. Os ventos esparsos ficaram aquém do alarmado. Aulas foram suspensas. Empresas dispensaram seus funcionários bem cedo. Espetáculos culturais foram cancelados. Para maior espanto, a Prefeitura decidiu contratar os serviços de uma entidade espiritual – através de seus auto-declarados prepostos terrestres – para interceder pelas terras cariocas. Cabe indagar se o objetivo é impedir as intempéries quando o município falhar ao deixar de alertar, ou pedir que os estragos aconteçam quando os alarmes informarem que o perigo está a caminho, para comprovar a eficiência dos sistemas(Leia mais)

Estação esquecida sob Botafogo expõe décadas de abandono do metrô carioca

A Estação Morro de São João, localizada entre Botafogo e Cardeal Arcoverde, nas proximidades do Shopping RioSul, é uma das mais emblemáticas obras inacabadas da infraestrutura de transportes do Rio de Janeiro. Escavada há mais de três décadas para integrar a Linha 1 do metrô, a estação teve parte significativa de sua estrutura construída, mas nunca foi concluída nem aberta ao público. O espaço permanece oculto sob a cidade, como um retrato do desperdício de recursos e da descontinuidade das políticas públicas voltadas à mobilidade urbana. O tema está longe de ser novidade para este blog. Ao longo dos anos, temos denunciado repetidamente o abandono da Estação Morro de São João e defendido sua conclusão como uma medida estratégica para ampliar a capacidade do sistema metroviário. A reportagem do Diário do Rio reforça aquilo que já mostramos diversas vezes: a(Leia mais)

Detroit, Acapulco e o Rio: quando a história insiste em nos alertar, de Hugo Costa

Cidades não entram em declínio de forma repentina. Antes que a decadência se torne evidente, acumulam-se sinais de alerta: uma economia que perde dinamismo, investimentos que deixam de chegar, problemas estruturais que se agravam e escolhas que privilegiam soluções de curto prazo em detrimento de uma estratégia consistente de desenvolvimento. A história mostra que esses processos dificilmente são inevitáveis; na maioria das vezes, são o resultado de decisões — ou da ausência delas. Neste artigo, o geógrafo Hugo Costa destaca que Detroit e Acapulco seguiram caminhos distintos, mas terminaram expondo a mesma fragilidade: a dependência excessiva de um único modelo de desenvolvimento. Uma viu sua prosperidade ruir com o esvaziamento da indústria; a outra descobriu que a força do turismo não é suficiente quando a degradação institucional e a violência avançam. O Rio de Janeiro não é uma cópia de(Leia mais)

Nesta cidade falta laicidade

Nem sempre a legalidade basta para encerrar uma discussão de interesse público. A decisão da Prefeitura do Rio de Janeiro de investir mais de R$ 200 milhões na construção do Parque Terra Prometida, transformando um antigo espaço destinado à educação, à ciência e ao lazer em um complexo de caráter religioso, pode não contrariar a legislação. Ainda assim, suscita um debate que vai além do campo jurídico: qual deve ser o papel do Estado quando se trata de financiar e promover iniciativas vinculadas à religião? A questão envolve não apenas a destinação de recursos públicos, mas também os limites impostos pelo princípio da laicidade e as prioridades de uma administração que representa uma sociedade plural. É justamente nessa zona de tensão — entre o que a lei permite e o que se espera de um Estado laico — que o(Leia mais)

Uma praça em Pequim, de Roberto Anderson

O olhar sobre uma cidade pode revelar muito mais do que sua arquitetura. Em seu texto, o arquiteto e urbanista Roberto Anderson, professor da PUC-Rio e especialista em urbanismo e patrimônio, parte de uma experiência cotidiana em Pequim para observar como uma das maiores metrópoles do mundo organiza seus espaços e, sobretudo, como seus habitantes deles se apropriam. Ao descrever uma praça aparentemente comum, cercada por grandes conjuntos residenciais, Anderson encontra uma dinâmica urbana que reúne diferentes gerações em atividades simples, mas essenciais à vida coletiva. A cena, observada em meio à escala monumental da capital chinesa, conduz a uma reflexão sobre o papel dos espaços públicos nas cidades contemporâneas e sobre aquilo que urbanistas de todo o mundo procuram construir: lugares capazes de estimular a convivência, o movimento e o sentimento de pertencimento. Urbe CaRioca Roberto Anderson: Uma praça(Leia mais)

Restaurante histórico do Palácio Capanema será reaberto depois de quatro décadas

O Palácio Gustavo Capanema, um dos maiores símbolos da arquitetura moderna brasileira e da vida cultural do Rio de Janeiro, prepara-se para recuperar uma parte importante de sua própria memória. Após cerca de quatro décadas, o restaurante histórico instalado no terraço do edifício deverá voltar a funcionar, reabrindo ao público um espaço que, entre as décadas de 1940 e 1960, serviu como ponto de encontro de intelectuais, artistas e funcionários públicos. A retomada acontece após a ampla restauração do prédio e reforça a intenção de devolver ao Capanema não apenas sua arquitetura original, mas também o papel de espaço vivo de convivência e cultura no coração da cidade. A abertura do espaço ao público é ação direta pela revitalização do Centro, ao contrário de gabaritos liberados  (à custa de aumentar as construções e a altura dos prédios na Zona Sul,(Leia mais)

A Linha 4 e os erros de planejamento do metrô do Rio

A carta do leitor Gerard Fischgold, publicada no O Globo desta quarta-feira, merece atenção por ampliar uma discussão que já havia sido levantada em vários artigos deste site sobre a Linha 4 e sua integração ao eixo da Linha 1. Ao apontar a não conclusão de projetos e conexões que poderiam ter fortalecido a rede metroviária do Rio, o leitor chama atenção para um problema que vai muito além de uma linha específica: a histórica falta de planejamento integrado da mobilidade carioca. A questão central não é apenas quantos quilômetros de metrô foram construídos, mas quais conexões deixaram de ser realizadas e como essas escolhas afetaram a formação de uma verdadeira rede de transporte. O comentário também reforça uma percepção importante: o Rio frequentemente tratou sua infraestrutura de mobilidade como um conjunto de obras isoladas, e não como partes de(Leia mais)

MPRJ aponta “estranheza” e possível desvio de finalidade no caso Sendas

O caso do imóvel do Grupo Sendas, em Botafogo, está longe de chegar ao fim — e acaba de ganhar um novo capítulo que pode ampliar a pressão sobre a Prefeitura do Rio. Nesta terça-feira (21), o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) se manifestou contra o arquivamento de uma das ações que questionam a desapropriação, reacendendo uma disputa marcada por decisões judiciais e questionamentos sobre a legalidade da iniciativa. A medida pode abrir uma segunda frente judicial, enquanto o leilão permanece suspenso por decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ). O novo movimento ocorre depois que a 14ª Vara de Fazenda Pública extinguiu, em abril, uma das ações, sob o argumento de que ela teria perdido o “interesse procedimental” após o próprio Grupo Sendas recorrer à Justiça contra a desapropriação. O parecer do(Leia mais)

A “Linha 4” é a Linha 1 espichada: o engodo continua

Este site dedicou várias postagens ao projeto de extensão da Linha 1 do Metrô, batizado errônea e escandalosamente de Linha 4. Desta, existe apenas o trecho que atinge o Jardim Oceânico, sempre lotado devido à superposição das Linhas 1 e 2. A Linha 4 original ligaria Botafogo à Barra da Tijuca via Humaitá, Jardim Botânico e Gávea, dando início ao desejado metrô em rede de que a cidade do Rio de Janeiro e seus moradores precisam. Em seu lugar, a prioridade foi atender aos visitantes quando tudo era “pra Olimpíada”. A reportagem publicada no jornal O Globo mais uma vez detalha aspectos ligados à Estação Gávea, objeto de nova gambiarra sobre trilhos. Urbe CaRioca Linha 4 do metrô do Rio: dez anos após inauguração, trajeto ainda opera com metade da capacidade Às vésperas de completar uma década de operação, linha(Leia mais)

Marquise do Theatro Municipal corre risco de desabar e expõe abandono do patrimônio histórico

Mais do que um problema de manutenção, a deterioração da marquise do Theatro Municipal do Rio expõe uma contradição recorrente na gestão do patrimônio público: bens históricos de enorme valor costumam receber atenção apenas quando o desgaste já representa risco. Em um edifício tombado e símbolo da cultura brasileira, infiltrações, fissuras e sinais de comprometimento estrutural levantam dúvidas sobre a eficácia das políticas de conservação preventiva. O alerta de especialistas também vai além da preservação histórica. Em uma área de grande circulação de pedestres, qualquer falha estrutural pode colocar vidas em risco, tornando a questão um problema de segurança pública. A demora em responder às denúncias reforça um modelo de gestão marcado por ações emergenciais, em vez de manutenção contínua, o que aumenta custos, acelera a degradação e ameaça a integridade de um dos principais patrimônios culturais do país. Urbe(Leia mais)