RECLAMILDA E SÃO SEBASTIÃO – O METRÔ, A IMOBILIDADE, E A BARCA DA CANTAREIRA

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Vinte de janeiro, Dia de São Sebastião,santo padroeiro da Cidade do Rio de Janeiro.


São Sebastião, por Marco Palmezzano.
Wikipedia
Estou eu aqui de novo nesse Metrô, perdida em pensamentos enquanto o trem não anda… Sim, trem de Metrô, não trem daquele que já foi do D. Pedro e da Imperatriz Leopoldina, anda nos trilhos em cima da terra. Estou no outro, o vagão que anda por baixo da cidade igual minhoca, dizem que é “transporte de massa”. Deve ser mesmo porque estou aqui toda amassada, o ar-condicionado quebrou e a minhoca não anda. Ai, que calor! E nem encontro Elogilda para papear e me distrair as ideias!
Pois é, está paradinho aqui no túnel, não é na estação, não! O alto-falante avisou que tem que esperar desafogar o trânsito lá na frente… Não, não é ônibus, meu São Sebastião, é trem mesmo, mas de Metrô, no seu tempo não tinha nem um nem outro, aliás, nem tinha bonde…
Tá difícil ficar neste sufoco, viu? Tá bem, concordo, levar flechada no peito é pior, mas, sei não, isso aqui também é um sofrimento! Eu que desmaio à toa com falta de ar, que martírio! Hummm… Pensar em outra coisa? Tem que ser boa?
Ah! O trem andou!
Cadê Elô? Deve estar lá no vagão das mulheres, todo rosa, que vergonha… Um vagão “feminino” porque os homens não se comportam bem, onde já viu, padroeiro? Parece a piada de tirar o sofá da sala. Não sabe? Claro, me desculpe, esqueci que o senhor é santo, depois eu conto…
Quando eu era garota e os ônibus ficavam lotados, o trocador dizia “Um passinho à frente aí, por favor!”, o pessoal se espremia pra perto do motorista, a roleta rolava, e entrava mais gente no lotação, no ônibus, no ‘chifrudo’… Pois é, agora nem querem pagar passagem, querem de graça, “passe-livre”, fazem manifestação na rua… Bem que a passagem podia baixar de preço! Aqui nesse buraco de tatu sem trocador nem passinho à frente, uns homens empurram o povo vagão adentro, igual no Japão, e cabe mais gente.
Já viu sardinha em lata?
Pensar em coisa boa… Já sei! Elogilda que contou. Aquele pessoal da prefeitura, lembra, São Sebastião, que quer proteger o Rio mais do que o senhor – vê se pode? – convidou para outro “desafio”, justamente sobre Mobilidade Urbana! Parece bom, né meu santo? O povo dá ideia, o alcaide ouve, atende… Ora, pipocas, depois do fiasco que foi o do “legado olímpico” – desculpe a intimidade, chamar o senhor assim – mas será que é bom mesmo, SanSebá? A tal “mobilidade”, virou palavra da moda, na época da Copa só se falava nisso, e aqui o trem parou de novo, é só imobilidade!


Se a prefeitura quisesse ajudar mesmo não ficava fazendo brincadeirinha na internet, conversava com o pessoal do Estado e mandava completar a Linha 2 do Metrô até a Carioca e fazer a Linha 4 de verdade até à Gávea, pelo Humaitá e Jardim Botânico. Afinal, quem é que manda na Cidade?
Soube das novidades? Juntaram as Linhas 1 e  2, por isso estamos nesse sufoco aqui, tudo lotado! Tem mais, estão espichando a Linha 1 pra juntar com o pedaço da 4 da Gávea em diante, e a Linha 4 original foi rebatizada de Linha 5!
Isso não é rede, é nó górdio! Agora querem fazer a 3, até São Gonçalo, será que sai?
Não entendeu? Complicado? Depois mando uns mapinhas pro senhor aí no céu, vai ajudar!




Tem mais ainda.
A Estação Gávea só vai ficar pronta depois da Olímpiada. Por quê? Ora, só pode ser para facilitar a vida de quem for à Barra para os Jogos, os visitantes! Ao morador, nada! Não duvido que tenha bilhete especial e horário fixado para pegar o Metrô, muita segurança, tudo civilizado ‘pra inglês ver’.

Guaratiba, Campo da Fé, Julho 2013.
Imagem: Conexão Jornalismo

Não vão deixar acontecer de novo a confusão que aconteceu na Jornada Mundial da Juventude. O Metrô não deu vazão, os jovens desesperados na rua, lembra, meu Sebá? Quando o representante do seu chefe esteve por aqui, o Papa Francisco, naquele mês de julho em que choveu à beça, foi lama pra todo lado?!

Bom, olha a tal Mobilidade funcionando, ó, o trem andou, já quase chegando na Estação Carioca!



Por falar em carioca, o carioca é crédulo mesmo, veja a Elogilda, tão boa, mas tão ingênua, achando que esse metrô-tripa é para a população, que todos os ônibus vão ter ar-condicionado, que esse BRT resolve… Pode ter resolvido lá nas cidades pequenas, mas aqui? Faça-me o favor! Isso é i-m-e-d-i-a-t-i-s-m-o, fazer obra rápida e dizer que é eficiente! Ora, Transporte é coisa séria, é assunto de Estado, não pode ser projeto só de um governo…
E o povo acredita!
Hummmmm… Será que é por isso que o símbolo dos 450 anos é daquele jeito? Cá pra nós, não espalha pra ninguém, que cara de bocó!

Ai, desculpe! Era para pensar em coisa boa… Não há de ser nada, tudo vai melhorar, com muita fé a gente chega lá, veja que pensamento bom, SanSebá![...] Leia mais

RIO: CRÔNICA VIVA, AGONIA, E ÊXTASE*

CrôniCaRioca
Natal 2014
Foto: Urbe CaRioca




Com o Rio à disposição não haverá papel em branco, terror de quem escreve profissionalmente ou por gosto, dizem por aí. Se faltar inspiração, rua! A crônica está pronta, é só traduzir.


De areia, pedras portuguesas, cimentado, asfalto, paralelepípedos, terra, conservado ou cheio de buracos, limpo ou sujo, somente o chão carioca já renderia muitos textos.

Se olharmos para cima outros tantos. O céu azul esplendoroso neste dezembro contraria o serviço de meteorologia e não anuncia a tormenta prometida há dias. Nas árvores, as orquídeas colocadas pela mão do homem, as flores do abricó-de-macaco exuberantes… Como andará o açacu de Copacabana? Passarinhos são poucos, poderia haver mais para me acordarem bem cedinho como nos tempos da Tamandaré, minha janela ao lado da casa de Herbert Moses, um casarão cercado de árvores onde hoje fica o nº 200, espigão em desarmonia com os outros prédios da Praia do Flamengo.

Benesses urbanísticas dos anos 1970 perpetuadas no tempo…

Mais alto ainda, gaivotas procuram cardumes, mergulhos certeiros garantem a sobrevivência e a volta do bando para casa. Onde? Biguás no sentido contrário desenham a letra “V” no céu, buscam a Lagoa Rodrigo de Freitas. Formação perfeita – não batem uns nos outros – bem poderiam ensinar aos motoristas cá em baixo as distâncias mínimas de segurança, um dirigir elegante!

Na altura mediana acima da linha do horizonte a arquitetura não agrada, salvo exceções. O Rio de Janeiro deveria ter construções mais bonitas. Quem sabe a paisagem assombrosamente bela fez o homem achar que não precisava de mais nada? No caso do Leblon e de Ipanema, prédios singelos foram protegidos, simples, sim, mas memória urbana viva, tal como em Santa Cruz, Gamboa, Laranjeiras, Botafogo, Marechal Hermes e muitos outros bairros. O último cinema do Leblon, não. Poderá ir abaixo, enquanto outros, mesmo sem uso, foram tombados quase que ao mesmo tempo em que o do bairro famoso deixou de ser bem cultural protegido.

Olhar para frente pode ser desanimador. Aqui na Zona Sul a população de rua, que não para de crescer, aumenta mais ainda com a proximidade das Festas. São grupos enormes de jovens, a maioria moças fortes de aparência saudável, aspecto que nada garante, é verdade. Elas se sentam no chão, sempre à porta de bancos ou farmácias. Outras vezes andam para abordar os passantes. Pedem com jeito de lamento. Sem ter resposta, a expressão muda até o pedido seguinte, quando os olhos caídos e o tom de sofrimento ressurgem. No final do dia se reúnem e voltam para casa, pois casas todos têm, precárias é certo. Levam sacolas enormes com fraldas, leite, roupas e comida. Vêm e vão em geral às sextas e sábados. Em dezembro, todos os dias.

Entre as muitas reflexões que as cenas despertam uma se sobressai. Todas as moças fortes carregam crianças no colo. Filhos, sobrinhos, irmãos, empréstimos… Não se sabe. As idades variam entre 3 meses e 5 ou 6 anos, os maiores vendem balas.

Há poucos dias a sensação térmica na Cidade Maravilhosa foi de 46º. Na porta da farmácia, duas moças/mulheres e dois nenéns: 3 e 5 meses. É inconcebível colocar bebês e crianças um pouco maiores em situação de risco deliberadamente.

Um momento. Quem as põe em risco? Elas mesmas ou nós todos? Tivemos sorte e elas não, ou o que faltou? Responsáveis, casa, instrução, trabalho, qualificação, orientação, família, valores? Políticas públicas, mesmo abrangentes e eficientes, desaparecem frente ao crescimento exponencial de tantos problemas.

As cenas que entristecem e ao mesmo tempo revoltam deixam qualquer um cabisbaixo. E dali, novamente ao olhar o chão, um fio de esperança no bilhete colado na pedrinha portuguesa: “Só vivemos uma vez”, dizem as letras de forma. Mais três passos e o confiante carioca deixou outro papelzinho: “Aproveite a vida”.

Leblon, Rio de Janeiro, Dezembro 2014
Foto: Urbe CaRioca

Se as moças estão aproveitando a vida, temo que não, mas fazem com ela o melhor que conseguem no momento. Se houver alternativa, viver será melhor. Ensinarão novos valores àquelas crianças tão pequenas e indefesas. Terão um futuro.


A desigualdade social pode ser combatida de muitas formas. A principal, nesse Brasil tão rico de tantas coisas, é canalizar os recursos públicos para onde eles precisam realmente ir, impedir desvios e perdas que, ao não serem aplicados em escolas, hospitais, equipamentos culturais e ações pela segurança pública, indiretamente matam o futuro de tantos.



Resta ir em frente com olhar atento em todas as direções.

Paz no Natal, Feliz 2015 e um bom futuro para todos os cariocas e brasileiros.

Urbe CaRioca

 
*NOTA: O complemento do título é emprestado do magnífico filme Agonia e Êxtase, de 1965, dirigido por Carol Reed, que narra a história da pintura da Capela Sistina, trabalho para o qual o Papa Julio II contratou Michelangelo Buonarrotti. Charleston Heston faz o papel do artista e Rex Harrison encarna o Papa. Não se sabe se o serviço foi superfaturado. Mas o legado é verdadeiro.

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BRAVA GENTE BRASILEIRA OCUPA GOLFE

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OUTRA AÇÃO, OUTROS TEMPOS. OUTROS VALORES. EM 2005.



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Protesto pacífico em defesa da Cidade do Rio de Janeiro e do Meio Ambiente, contra a devastação da reserva e a eliminação de 45 hectares do Parque Municipal Ecológico Marapendi, na Barra da Tijuca.

A duração domovimentoOcupa Golfe é indeterminada. Corre nas redes sociais abaixo-assinado divulgado pelo site Panela de Pressão que pede o apoio dos vereadores para instalação de CPI sobre a obra do campo. Assinar é bem simples. O link está AQUI


Ocupa Golfe – Filmado em 16/12/2014

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