Do luxo ao esquecimento: a incrível história da Perfumaria Carneiro, símbolo de um Rio que já não existe

Durante décadas, a Perfumaria Carneiro foi muito mais do que uma rede de lojas de perfumes no Rio de Janeiro. Nascida em 1923, quando a Rua do Ouvidor ainda concentrava boa parte do comércio elegante da cidade, a empresa acompanhou as transformações urbanas do século XX, levando para os bairros produtos de marcas internacionais como Guerlain, Chanel, Jean Patou e Coty. Da velha região central a Copacabana, Ipanema, Tijuca e Niterói, a expansão da Carneiro acabou por seguir o próprio movimento de crescimento da cidade. Por trás dos balcões de madeira e vidro, porém, havia uma história que misturava comércio, política, indústria e mudanças nos hábitos dos cariocas. A família Carneiro não apenas vendia perfumes e cosméticos importados: representava grandes marcas, atuava no atacado, fabricava seus próprios produtos e construiu uma rede que chegou a dez lojas. Ao mesmo tempo,(Leia mais)

Do patrimônio ao “balcão” de vendas: o abandono que ameaça um chafariz de 209 anos no Rio

Um patrimônio de 209 anos, testemunha de diferentes momentos da história do Rio de Janeiro, deveria ser tratado como parte viva da memória da cidade. No entanto, o Chafariz da Rua Riachuelo, tombado pelo Iphan desde a década de 1930, hoje expõe não apenas as marcas do abandono, mas também uma inversão preocupante de sua função: a estrutura histórica passou a servir como balcão improvisado para a venda de mercadorias por camelôs, enquanto pichações e sinais de deterioração avançam sobre um monumento que deveria estar sob proteção permanente do poder público. Urbe CaRioca Chafariz de 209 anos no Centro do Rio vira ‘balcão’ de vendas para camelôs Monumento construído em 1817, na Rua Riachuelo, está em péssimo estado de conservação, apesar de ser tombado pelo Iphan há quase nove décadas Por Victor Serra – Diário do Rio Link original Um(Leia mais)

Eliminar equipamentos públicos comunitários requer justificativa

Por Andréa Redondo Eliminar ou mudar a finalidade de equipamentos urbanos públicos exige comprovar (1) a inutilidade ou prejuízos causados pelo existente, ou (2) que a nova função será de maior interesse para a sociedade do que a originalmente concebida. Esse princípio deveria orientar toda intervenção sobre o patrimônio construído com recursos do contribuinte destinado ao uso coletivo. Por isso merece reflexão a construção do chamado Parque Terra Prometida, em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. O empreendimento ocupará o lugar onde funcionou o Museu Cósmico – conhecido como Planetário de Santa Cruz -, inaugurado em 2008 no complexo recreativo e esportivo “Cidade das Crianças”, criado em 2004 para ampliar a oferta de áreas de lazer na região. Tanto o Planetário quanto a Cidade das Crianças foram abandonados e fechados por administrações subsequentes. A implantação do segundo(Leia mais)

Prefeitura do Rio: ciência meteorológica para quê?, de Antônio Sá

No último dia 29 de julho, a Cidade do Rio de Janeiro foi assolada por um vendaval de proporções gigantescas. O fenômeno climático não se restringiu aos cariocas, conforme se sabe. Os governos foram criticados por não emitirem alertas a respeito. Nesta semana os avisos soaram de madrugada, pelos telefones celulares, durante três dias seguidos. Os ventos esparsos ficaram aquém do alarmado. Aulas foram suspensas. Empresas dispensaram seus funcionários bem cedo. Espetáculos culturais foram cancelados. Para maior espanto, a Prefeitura decidiu contratar os serviços de uma entidade espiritual – através de seus auto-declarados prepostos terrestres – para interceder pelas terras cariocas. Cabe indagar se o objetivo é impedir as intempéries quando o município falhar ao deixar de alertar, ou pedir que os estragos aconteçam quando os alarmes informarem que o perigo está a caminho, para comprovar a eficiência dos sistemas(Leia mais)

Estação esquecida sob Botafogo expõe décadas de abandono do metrô carioca

A Estação Morro de São João, localizada entre Botafogo e Cardeal Arcoverde, nas proximidades do Shopping RioSul, é uma das mais emblemáticas obras inacabadas da infraestrutura de transportes do Rio de Janeiro. Escavada há mais de três décadas para integrar a Linha 1 do metrô, a estação teve parte significativa de sua estrutura construída, mas nunca foi concluída nem aberta ao público. O espaço permanece oculto sob a cidade, como um retrato do desperdício de recursos e da descontinuidade das políticas públicas voltadas à mobilidade urbana. O tema está longe de ser novidade para este blog. Ao longo dos anos, temos denunciado repetidamente o abandono da Estação Morro de São João e defendido sua conclusão como uma medida estratégica para ampliar a capacidade do sistema metroviário. A reportagem do Diário do Rio reforça aquilo que já mostramos diversas vezes: a(Leia mais)

Detroit, Acapulco e o Rio: quando a história insiste em nos alertar, de Hugo Costa

Cidades não entram em declínio de forma repentina. Antes que a decadência se torne evidente, acumulam-se sinais de alerta: uma economia que perde dinamismo, investimentos que deixam de chegar, problemas estruturais que se agravam e escolhas que privilegiam soluções de curto prazo em detrimento de uma estratégia consistente de desenvolvimento. A história mostra que esses processos dificilmente são inevitáveis; na maioria das vezes, são o resultado de decisões — ou da ausência delas. Neste artigo, o geógrafo Hugo Costa destaca que Detroit e Acapulco seguiram caminhos distintos, mas terminaram expondo a mesma fragilidade: a dependência excessiva de um único modelo de desenvolvimento. Uma viu sua prosperidade ruir com o esvaziamento da indústria; a outra descobriu que a força do turismo não é suficiente quando a degradação institucional e a violência avançam. O Rio de Janeiro não é uma cópia de(Leia mais)

Nesta cidade falta laicidade

Nem sempre a legalidade basta para encerrar uma discussão de interesse público. A decisão da Prefeitura do Rio de Janeiro de investir mais de R$ 200 milhões na construção do Parque Terra Prometida, transformando um antigo espaço destinado à educação, à ciência e ao lazer em um complexo de caráter religioso, pode não contrariar a legislação. Ainda assim, suscita um debate que vai além do campo jurídico: qual deve ser o papel do Estado quando se trata de financiar e promover iniciativas vinculadas à religião? A questão envolve não apenas a destinação de recursos públicos, mas também os limites impostos pelo princípio da laicidade e as prioridades de uma administração que representa uma sociedade plural. É justamente nessa zona de tensão — entre o que a lei permite e o que se espera de um Estado laico — que o(Leia mais)

Uma praça em Pequim, de Roberto Anderson

O olhar sobre uma cidade pode revelar muito mais do que sua arquitetura. Em seu texto, o arquiteto e urbanista Roberto Anderson, professor da PUC-Rio e especialista em urbanismo e patrimônio, parte de uma experiência cotidiana em Pequim para observar como uma das maiores metrópoles do mundo organiza seus espaços e, sobretudo, como seus habitantes deles se apropriam. Ao descrever uma praça aparentemente comum, cercada por grandes conjuntos residenciais, Anderson encontra uma dinâmica urbana que reúne diferentes gerações em atividades simples, mas essenciais à vida coletiva. A cena, observada em meio à escala monumental da capital chinesa, conduz a uma reflexão sobre o papel dos espaços públicos nas cidades contemporâneas e sobre aquilo que urbanistas de todo o mundo procuram construir: lugares capazes de estimular a convivência, o movimento e o sentimento de pertencimento. Urbe CaRioca Roberto Anderson: Uma praça(Leia mais)

Restaurante histórico do Palácio Capanema será reaberto depois de quatro décadas

O Palácio Gustavo Capanema, um dos maiores símbolos da arquitetura moderna brasileira e da vida cultural do Rio de Janeiro, prepara-se para recuperar uma parte importante de sua própria memória. Após cerca de quatro décadas, o restaurante histórico instalado no terraço do edifício deverá voltar a funcionar, reabrindo ao público um espaço que, entre as décadas de 1940 e 1960, serviu como ponto de encontro de intelectuais, artistas e funcionários públicos. A retomada acontece após a ampla restauração do prédio e reforça a intenção de devolver ao Capanema não apenas sua arquitetura original, mas também o papel de espaço vivo de convivência e cultura no coração da cidade. A abertura do espaço ao público é ação direta pela revitalização do Centro, ao contrário de gabaritos liberados  (à custa de aumentar as construções e a altura dos prédios na Zona Sul,(Leia mais)

A Linha 4 e os erros de planejamento do metrô do Rio

A carta do leitor Gerard Fischgold, publicada no O Globo desta quarta-feira, merece atenção por ampliar uma discussão que já havia sido levantada em vários artigos deste site sobre a Linha 4 e sua integração ao eixo da Linha 1. Ao apontar a não conclusão de projetos e conexões que poderiam ter fortalecido a rede metroviária do Rio, o leitor chama atenção para um problema que vai muito além de uma linha específica: a histórica falta de planejamento integrado da mobilidade carioca. A questão central não é apenas quantos quilômetros de metrô foram construídos, mas quais conexões deixaram de ser realizadas e como essas escolhas afetaram a formação de uma verdadeira rede de transporte. O comentário também reforça uma percepção importante: o Rio frequentemente tratou sua infraestrutura de mobilidade como um conjunto de obras isoladas, e não como partes de(Leia mais)